Dente-de-Leão, Coroa-do-Monge; Dandelion: uma flor que simboliza a pureza, esperança e confiança. Foto: Aleksandr Ledogorov

A gente não sabia fazer diferente

A prática de Metabavana para os pais transforma nossa visão e nos revela como guardá-los como Budas no coração

Por
Revisão: Dirlene Ribeiro Martins

A delicadeza a partir da qual mestres e mestras falam de pais e mães deixa muitos dos budistas ocidentais desconcertados. Jetsunma Tenzin Palmo, S. S. o Dalai Lama e Sua Eminência Chagdud Tulku Rinpoche são alguns dos mestres que claramente já declararam sua gratidão pelos pais. De fato, é conhecida a reverência que o Oriente dedica aos ancestrais e, desse modo, à tradição. Agradecem porque reconhecem na possibilidade dessa configuração um milagre. Diferente de nós, não entendem o surgimento neste mundo como um desencontro, mas, sim, como uma oportunidade muito preciosa.

Por outro lado, o Ocidente brinda a tradição com a transgressão e evidencia a complexidade que é existir. Qual o posicionamento do Budismo em relação à discriminação histórica das mulheres? Se todos os seres possuem a natureza de Buda, por que tanta hierarquia nas culturas nas quais o Budismo emergiu? Questões importantes que a herança do Buda se vê intimada a responder na sua nascente face ocidental. É nesse florescimento – no qual uma matriz sócio-histórica não deixa de provocar a outra – que somos, enquanto praticantes, provocados(as) a repensar e reposicionar nossas questões.

Particularmente, me vi dentro desse furacão quando percebi que não era possível ver meu potencial de conhecer a natureza de Buda se não reconhecesse a budeidade também nas pessoas que me trouxeram ao mundo.

Essa questão me atacou o juízo assim que cheguei ao Budismo, doze anos atrás, envolvido com uma pretensa e inocente ideia de que havia encontrado o sentido de tudo e que iria me dedicar a isso de corpo inteiro, deixando meus velhos pais católicos para trás (e, também, as marcas dolorosas da infância). Sim, eu seria budista independente de tudo e de todos, encontraria o Buda nas longas sessões de meditação e pularia para dentro do portal dos iluminados assim que ele se abrisse.

Felizmente, o portal nunca se abriu e, apesar de ter me rasgado por dentro, terminei sendo exposto aos ensinamentos sobre o amor por quem viria a ser meu professor, o Lama Padma Samten.

Diferente de qualquer perspectiva salvacionista ou heroica (apesar, é claro, de eu ter insistido nela por muitos anos ainda), o Lama convidava para um envolvimento e não um distanciamento do cotidiano.

Ele mostrava que o Budismo estava presente de maneira viva nas relações e, por isso, elas eram o principal indicador da qualidade da nossa prática. E mais: o que não estivesse abençoado nas relações se refletiria como obstáculos diretos na própria capacidade do(a) praticante consigo mesmo(a) e em outras situações da vida.

Não demorou para que eu entendesse que precisaria responder à pergunta sobre quem eu sou e o que meus pais são.

Meu professor havia realizado um convite que eu não poderia recusar, mesmo que para isso tivesse de deixar para trás muito das minhas prepotências. Para ir por um caminho realmente lúcido, eu precisaria me abrir para a experiência de ver meus pais de forma radicalmente nova e, com isso, toda a minha história.

pais

Para viver a vida, é preciso se desprender da própria origem. Foto: Dawid Zawiła

Primeiramente, entendi que meus pais eram a resultante de condições específicas e que não era possível julgá-los de forma definitiva sobre qualquer ação que tivessem feito ou deixado de fazer. Eram crianças que haviam sido expostas a determinadas configurações, do mesmo modo que eu. Como eu poderia ser tão severo no julgamento de crianças?

Então, eu poderia entender – com muitas lágrimas – que eles não sabiam fazer diferente. Sim, não haviam participado da especialização de “como ser pai e mãe de João”, nem mesmo como ouvintes. Só possuíam a carga da tradição familiar com todos os acertos e todos os erros. E talvez fosse um pouco equivocado responsabilizá-los, definitivamente, por serem quem são.

Essa percepção me abriu para a possibilidade de vê-los como seres sencientes que, sem querer, querendo, tinham tropeçado um no outro e me oferecido ao mundo. Logo, como poderia não agradecer a esse encontro, como poderia não ser grato a essa coincidência que me unia a essas duas pessoas?

Essa percepção de agradecimento me fez entender que eu poderia amá-los – não necessariamente como pai ou mãe, mas como seres deste mundo aos quais eu estava profundamente ligado. Desta forma, inciei uma prática diária de me conectar com eles por meio do amor – a mesma que o Lama havia ensinado.

Com o tempo entendi que era fundamental compreender, agradecer e irrigar as raízes, a energia de pai e mãe presente em mim e nos seres.

Fui percebendo que me tornava uma pessoa mais apta a reconhecer as oscilações ou o surgimento de expectativas (embora, é claro, isso sempre esteja em processo!) e, o mais importante, comecei a sentir amor de verdade por eles e guardá-los como Budas no meu coração.

Não raro, recorro à energia deles para tentar entender algo e mesmo para olhar uma marca específica que está teimando em surgir. Vejo que o amor, essa dimensão nutritiva sempre presente, é maior que o apego ou que a carência, e isso me ajuda muito.

Começo a entender também que as energias doadoras pai-mãe estão presentes em toda a natureza e na própria respiração. E o melhor de tudo é perceber que minha relação com eles se modificou completamente, de forma que podemos sentir apoio e respeito mútuos, além de uma vontade grande de partilhar nossos mundos.

Ao soprar as sementes do Dente-de-Leão, aspiro que meus desejos se realizem. Foto: Jamie Street


Como essa prática fez muito sentido para mim, compartilho esta versão de Metabavana com vocês, conforme aprendi do meu professor e como percebi ser, de fato, muito útil:

Metabavana para pai e mãe

 

Pai, que você seja feliz de verdade.

Mãe, que você seja feliz de verdade.

Pai, que você encontre as verdadeiras causas da felicidade.

Mãe, que você encontre as verdadeiras causas da felicidade.

 

Neste momento, a compaixão está a todo o vapor, e você realmente entende que eles estavam dentro de determinada configuração. Embora fossem crianças com grande capacidade de aprendizado, as condições emocionais às quais foram expostos com certeza influenciou de maneira decisiva a forma como se comportaram no mundo. Uma boa imagem é vê-los mesmo como criança. Niná-los.

 

Pai, que você esteja livre do sofrimento verdadeiro.

Mãe, que você esteja livre do sofrimento verdadeiro.

Pai, que você esteja livre das causas do sofrimento verdadeiro.

Mãe, que você esteja livre das causas do sofrimento verdadeiro.

 

Eu me lembro um pouco dos sofrimentos que meus pais tiveram em vida, e todos eles estão ligados ao não-reconhecimento do seu estado criativo inato. Nesse momento, estou realmente cantando para eles meu desejo de que não se rendam à ideia de que a felicidade é externa, mas, sim, se assentem na sua natureza criativa, para além do sofrimento.

 

Pai, que você esteja livre de todos os condicionamentos aprisionantes.

Mãe, que você esteja livre de todos os condicionamentos aprisionantes.

Pai, que você encontre a lucidez interna, onde quer que você vá.

Mãe, que você encontre a lucidez interna, onde quer que você vá.

 

Vê-los superando o carma e os padrões de repetição é muito libertador. Sinto que eles mudam de pele, deixam cair velhas roupas ou realmente retiram os espinhos do coração, como o Lama sugere. Sinto que eles se tornam repentinamente iluminados, cheios de energia, e que estão repousados sobre a dimensão criativa, transformando sofrimento em sabedoria.

 

Pai, que você traga benefícios verdadeiros aos seres, em todo lugar,
a todo momento.

Mãe, que você traga benefícios verdadeiros ao seres, em todo lugar,
a todo momento.

Pai, que trazer benefício aos seres seja a alegre fonte da sua vida.

Mãe, que trazer benefício aos seres seja a alegre fonte da sua vida.


Neste momento, meus dois pais se tornam Budas completos, emanando raios de compaixão e amor nas dez direções. Eles estão realizados, coração cheio, transbordando amor entre eles e na relação comigo. Eventualmente, insiro também outras pessoas da família, ancestrais, meus avós, irmãos, tias e tios, e vou ampliando até incluir mais e mais pessoas.

Todos vão virando Budas enquanto recebem essas bênçãos. Sinto realmente essas bênçãos chegarem até mim e até todos os seres. Sinto também – diante das minhas arrogâncias ou imaturidades de filho – que eles emanam a compaixão dos Budas e entendem que, tantas vezes, eu também não soube fazer diferente.


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21 Comentários

  1. Milton disse:

    Emocionante. Abração no Buda, Dharma e Sanga para que todos Sejam Verdadeiramente Felizes além de causas e condições.

  2. Nanda Botelho disse:

    Muito bom! Cheguei a isso por outro caminho, mas sinto o mesmo em relação aos que vieram antes de mim.

    E estou craque em Metabavana. Tem sido minha companheira desde que a conheci. Muitas bênçãos pra nós. Lucidez! Xero querido, que tão bem me apresentou o Budismo.

  3. Maria Célia De Santi disse:

    É tão doce cultivar esta perspectiva! Como num relance as dores de outrora e que deixaram marcas, cessam e abrem para a amorosidade, sentimento que não existia com a frequência desejável entre seres humanos. meus pais já estão mortos, certamente renascidos em outras circunstâncias. Emano meu amor pelo ser búdico que são e guardo outra parcela para me ajudar a fazer diferente, a buscar meu não eu , que é tão ameaçador. Gratidão.

  4. elizabeth disse:

    vou praticar com certeza. muita gratidao.!!!!

  5. Edna A. Lage disse:

    Recebi essa msm pelo grupo da Sanga. Abri e pensei “Não tenho tempo para ler agora pois tenho que escutar o Lama. Bem, no outro dia vou ao Safari e o texto aparece diante de mim- e pensei no início que o texto era de minha autoria. E o texto foi me levando… levando graciosamente como os passos de um cisne. Meu coração foi crescendo em alegria e fiz metabhhavana para o Lama e para você João.
    O Lama é o caminho- você João é o caminho.
    Obrigada para sempre.

  6. Constansa Becker disse:

    Methabavaneando pela vida… eu vou…

  7. Luci disse:

    Maravilhoso

  8. Ayodhya disse:

    Gratidão. Realmente, a gente nem se dá conta…tantas vezes em não consigo fazer diferente.

  9. Danielle disse:

    João, você hoje, pela primeira vez, me fez chorar. Gratidão. Dani (CEBB João Pessoa-PB)

  10. Roberto Patricio de Souza disse:

    eu faço metta Bhavana pra meus pais, mais dessa maneira que João está ensinando e incrível. Metta!

  11. Valter do Vale disse:

    Extraordinário.

  12. Valter do Vale disse:

    Simplesmente extraordinário. Por enquanto nada tenho a acrescentar como comentário .

  13. Paulo César de Oliveira Lima disse:

    Maravilhoso,toda pessoa que,por ventura,tenhá divergências familiares,deveria descobrir as causas do sofrimento das pessoas envolvidas na divergência ,para que possam viver em paz.

  14. lenir appes disse:

    ressignificando valores… ressignificar a Vida…Maturidade eis o presente da Vida por isso!
    Hare Om Namastê parceiro!

  15. José Maxsuel de Moura Siqueira disse:

    João, que texto lindo, tocante. Eu chorei junto e rezei. Gratidão por transformar tua experiência. Hoje sinto que você é um pouco mãe e pai meus. Gratidão querido!

  16. Sarash disse:

    Metabavana poderosa! Gratidão, João!

  17. Margaret disse:

    Metabavana me ajuda muito, gratidão infinita é o que sinto por ter encontrado os ensinamentos do Budismo .
    Lindo seu relato João!
    Que muitos possam se inspirar e praticar!

  18. Willian disse:

    João, você com sua lucidez e sabedoria que muito tem me beneficiado e acredito ter e continuando a beneficiar milhares de seres. Gratidão 🙏

  19. Cláudio de Menezes Pontes disse:

    Hoje, não os tendo mais presentes, sei que eles fizeram o melhor que lhes cabia para a minha formação e desenvolvimento. Sou lhes grato e os amarei para sempre. De igual sorte, hoje pai e avô, se mais não fiz foi por não saber fazer melhor. Espero que meus filhos compreendam e me perdoem por não ter feito melhor.

  20. Christian disse:

    Seu texto está magnifico. Me reconheci em cada trecho do texto e tive uma experiencia muito parecida com a sua, alías quase idêntica. Chorei copiosamente quando esta lendo, mas foi um choro de alegria, libertação e gratidão por ter entendido a importância dos meus pais na minha vida, apesar de todos os grandes erros que cometeram. Como disse o texto, eles não podiam fazer diferente e nem eu. Obrigado irmão por este texto libertador e maravilhoso, pode ter certeza que ele aliviará o sofrimento de muitos seres.

  21. Emmanuel Rodrigues disse:

    Obrigado, muito obrigado por este texto!

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