Foto: Tergar Brasil

O medo é como uma nuvem

Yongey Mingyur Rinpoche fala para Bodisatva sobre meditação, medo e simplicidade

Por
Revisão: Caroline Souza
Transcrição: Janaína Macedo
Tradução: Sandra Coelho

Tivemos uns 15 minutos para entrevistá-lo durante o retiro intenso de três dias sobre Reconhecimento da Natureza Pura do programa Caminho da Liberação, em São Paulo. Magro e sorridente, usando uma sandália de dedo, Yongey Mingyur Rinpoche, respondia rapidamente nossas perguntas com um sorriso leve, suaves gestos com as mãos e um olhar quieto e silencioso.

Entre uma pergunta e outra, a sensação que tínhamos era que a pequena sala de entrevista se transformava numa grande montanha com a presença dele. Daqui a pouco, tudo se dissolvia com a sua risada larga. Entre os vários assuntos que decidimos abordar, ele deu uma pequena instrução sobre meditação para quem está começando.

“Meditação significa se conectar com a consciência. Pensamento, emoções, sentimentos e a nossa experiência são como uma nuvem. Você pode ter uma nuvem linda, uma nuvem feliz ou uma outra que não é agradável, mas a nuvem em si não modifica o espaço natural. O espaço é sempre livre, é sempre puro”.

Mingyur Rinpoche também falou sobre como lidar com o medo, o stress e a preocupação nestes tempos de plena turbulência política e social no Brasil. “O medo é mais uma nuvem. O ponto central na meditação é que temos essa consciência genuína, livre e pura conosco. Devemos conectar-nos com ela. Você poderá até utilizar o medo, o stress e a preocupação como suportes para sua meditação. Quando você está estressado ou preocupado, há muitas sensações físicas, várias palavras e imagens associadas. Você pode olhar para elas; pode olhar para a sensação, para todo calor que surge com ela, o cansaço ou o frio, ou para as dúvidas e tantas outras coisas. Apenas observe”.

Para concluir, perguntamos qual o ensinamento de Buda é mais efetivo para a busca atual de nossa sociedade pelo bem-estar. Mingyur Rinpoche respondeu prontamente: “Consciência (awareness)”.


Muitas pessoas, quando começam a meditar, têm a sensação de que a meditação não é para elas, porque elas se sentem muito agitadas. Que conselho você daria para as pessoas que estão começando?

Acredito que há um mal-entendido na forma como muitas pessoas entendem a meditação. Algumas pensam que meditação significa manter a mente quieta, longe de pensamento e emoção; que significa bloquear pensamento e emoção. Este é um equívoco. E o segundo engano é que algumas delas pensam que meditação é um posicionamento em busca de algum estado particular da mente: um estado pacífico, alegre, claro e não-conceitual. Assim, se você busca por uma mente pacífica e essa mente pacífica responde “Estou ocupada”, e se você diz “Não fale, fique quieta”, então ela falará ainda mais. Se você diz “brigadeiro não, brigadeiro não”, ela retrucará “mais brigadeiro”. É assim que nossa mente funciona.

Dessa forma, se você parte dessa compreensão equivocada ao meditar, você não consegue meditar. Isso é justamente o oposto de meditar. Consequentemente, você poderá sentir que a meditação não é para você. Mas, na verdade, meditação significa se conectar com a consciência; consciência esta que significa a mente pura. Esta consciência é o pano de fundo dos pensamentos, emoções, sentimentos e percepções.

Tudo brota da consciência, permanece nesta e nela mesma se dissolve. Assim, o que nomeamos por consciência pode ser chamado de espaço. Pensamento, emoções, sentimentos e a nossa experiência são como uma nuvem. Você pode ter uma nuvem linda, uma nuvem feliz ou uma outra que não é agradável, mas a nuvem em si não modifica o espaço natural. O espaço é sempre livre, é sempre puro.

A consciência em si é sempre pura e livre; você não precisa bloquear o pensamento ou forjar um estado especial de mente. Apenas se conecte com a consciência.

Mas como se conectar com essa consciência? Em um primeiro momento,você não consegue se conectar apenas com a consciência: você precisa se conectar a algo, a algum objeto. Pode, então, se conectar com sua respiração: permaneça ciente dela, sem se importar com o pensamento. Se você está consciente da sua respiração, se você não se esquece dela, o brigadeiro surge e não há problema! Deixe o brigadeiro vir… deixe o brigadeiro ir. Desse modo, qualquer estado da sua mente está bem: calma é ok, felicidade é ok, infelicidade é ok – desde que você se mantenha consciente de sua respiração. Esta é uma forma completamente natural de aprender meditação.

Estamos vivendo atualmente um período de intensa turbulência política e social. Na verdade não só no Brasil, mas no mundo, porém aqui está muito intenso nesse momento. Como os(as) praticantes podem lidar com isso, do ponto de vista da prática?

Para o(a) praticante, esse medo é mais uma nuvem. O ponto central na meditação é que temos essa consciência genuína, livre e pura conosco. Devemos conectar-nos com ela. Se esse medo surge, e você está começando a aprender sobre meditação, então você deve retornar para a respiração. Quando estiver com medo, retorne para sua respiração; quando estiver preocupado, retorne para sua respiração; quando estiver estressado, retorne para sua respiração. E, subitamente, você terá desenvolvido um novo hábito: fazer com que sua mente retorne para a respiração.

Então, após algum tempo meditando, você poderá até utilizar o stress e a preocupação como suportes para sua meditação. Quando você está estressado ou preocupado, há muitas sensações físicas, várias palavras e imagens associadas. Você pode olhar para elas; pode olhar para a sensação, para todo calor que surge com ela, o cansaço ou o frio, ou para as dúvidas e tantas outras coisas. Apenas observe.

Se você vê o rio, isso significa que você está fora dele. Se você cai no rio e é arrastado por ele, você não pode vê-lo. Mas se você o vê, isso significa que está fora dele e não tem que pará-lo. O rio vai continuar fluindo. Pensamentos e emoções continuam, mas não se tornam descontrolados. Existe espaço entre você e o pensamento ou emoção. Então o pensamento se torna um com a sua respiração.A respiração vem e vai. O sentimento vem e vai.

Partindo desse ponto de vista, às vezes temos que nos alinhar com determinado partido político, ou escolher entre fazer ou não algo. De que modo lidar com situações assim a partir da perspectiva da prática?

De modo geral, se você quer tomar uma decisão e a toma a partir da raiva, então a raiva obscurece a realidade. Quando se está com raiva e se olha para a realidade, apenas 10% do que se vê é real, enquanto os 90% restantes são manifestação da raiva. Você não vê a situação com muita clareza e comete mais erros. Gera um problema atrás do outro. Mas se sua mente retorna para a respiração e acalma suas emoções, você adquire compreensão, sabedoria e meios hábeis. Todos(as) possuímos amor e compaixão; temos todos(as) essa bondade básica em nós.Nossa mente, então, torna-se mais calma e mais clara. Dessa forma você pode fazer a escolha correta, a ação correta emerge e você pode fazer o esforço adequado de modo a gerar benefícios.

Como você vê o processo de treinamento de professores ocidentais do Darma? Qual sua opinião a esse respeito? Atualmente, professores estão indo para os Estados Unidos, porque no Oriente já não é possível um treinamento efetivo. Que impacto isto terá sobre o futuro da tradição?

O ponto mais importante é que um professor em treinamento – ou algo do gênero – deve fazer de si próprio um aluno. Treinamento é treinar a si mesmo. Não é algo como ‘Vou treinar para poder treinar outras pessoas’. É como vocês dizem: ‘se você quer mudar o mundo, você tem que primeiro mudar a si próprio’. Se todos os indivíduos no mundo querem mudar a si mesmos, é possível mudar o mundo. Mas se querem mudar o mundo e não querem mudar a si próprios, isto só resultará em vários problemas na história da humanidade – podemos pensar na primeira e segunda guerras mundiais, dentre outras tantas.

As pessoas não querem mudar a si mesmas, mas querem mudar as outras. Portanto, acredito que é muito importante, especialmente para o Darma, aplicar a prática de fato ao seu coração, à sua vida. Desse modo, você vive a partir daquilo que ensina, tornando-se um com o ensinamento.

Os(as) professores(as) então surgem naturalmente, na medida em que os(as) praticantes praticam… Mas às vezes necessitamos de algum treinamento regular e não temos isso no Ocidente.

Temos de buscar as condições, buscar as habilidades, etc. Mas a essência, mesmo, é realmente aplicar o que quer que você ensine, o que quer que você pratique, e se tornar uno com o ensinamento. Não acredito que tenhamos de procurar por outras habilidades online porque elas não estarão lá. Reunir tudo, fazer um trabalho duro, construir um currículo, são tantas coisas… mas isso são apenas os “galhos” da árvore; não constituem o seu tronco, a sua base.

O estilo de vida nas sociedades ocidentais é o oposto de uma vida simples. Fugimos do desconforto e estamos sempre nos protegendo em uma vida “sem surpresas” no que concerne às nossas necessidades básicas. Durante seu retiro como um andarilho, sua vida certamente se resumiu às necessidades mais básicas. O que poderia compartilhar conosco deste período, de modo a nos ajudar a transformar nossa visão e compreender o valor profundo da simplicidade?

Eu iniciei meu retiro como um andarilho sem um plano em particular, sem abrigo, sem recursos financeiros, mas esse foi de fato um dos melhores períodos da minha vida, porque pude aprender como lidar com as dificuldades. Sou privilegiado por ter uma boa família, estou cuidando de um mosteiro, sou um Rinpoche, sou o professor… Há tantas coisas, que minha vida se tornou muito conveniente. Portanto, quando saí desse círculo, deparei-me com a necessidade de sobreviver por mim mesmo. Temos muitos desses momentos em nossas vidas. Não é preciso partir para um retiro andarilho, especialmente no mundo moderno. Quando você completa 18 anos, tem de sobreviver sozinho: sair de casa, procurar um emprego, pagar o aluguel, certo? Há muitas oportunidades no momento em que você se sente saindo da sua zona de conforto, do seu círculo.

No ocidente, existem muitas oportunidades para o crescimento próprio, o autoaprendizado, a abertura. Há muitas possibilidades novas. A criatividade surge disto, bem como outras coisas. Consequentemente, se você vai à falência, isto é uma boa oportunidade; se perde seu emprego, isto é uma boa oportunidade; se tem muitos obstáculos, isto também é uma boa oportunidade!

Qual a importância da prática do ngöndro?

Nós temos uma natureza iluminada: aquilo que chamamos de natureza básica, de bondade básica. O termo budista para isso é natureza búdica, que diz respeito a toda essa qualidade iluminada. Tal qualidade possui amor, compaixão, sabedoria, meios hábeis. Há tantas coisas, mas não somos capazes de reconhecê-la verdadeiramente. Como podemos reconhecê-la? Imagine, por exemplo, uma casa com uma luz brilhante em seu centro. Entretanto, essa casa está fechada – porta, janelas, tudo fechado. Quando queremos ver a luz, ela continua a se manifestar através da fresta da janela, do cantinho da porta. É possível enxergá-la. A luz se manifesta no exterior e, ao olharmos para ela, somos capazes de ver a fonte de luz que se encontra no interior. Apesar de apresentarmos muito daquilo que chamamos de obscurecimentos, negatividades e delusão, ainda assim manifestamos compaixão, alegria e sabedoria.

O objetivo do ngöndro é praticar todas essas diferentes manifestações, tais como a vida humana preciosa, a correta apreciação de si próprio, da sua qualidade intrínseca e de tudo ao seu redor. Contemplamos a impermanência e temos essa sensação de deixar ir. Reconhecemos o carma; vemos que tudo é interdependente e que não há nada único e separado. Percebemos essa sabedoria intrínseca e nos conectamos a esse aspecto, e assim o sofrimento do samsara vai dando lugar à renúncia, ao desapego. Surge fé, amor e compaixão. Desse modo, todo o processo do ngöndro se constitui de diferentes aspectos que têm o intuito de nos conectar, aos poucos, à nossa verdadeira natureza.

Acreditamos que esta seja sua quinta ou sexta visita ao Brasil. Qual sua impressão da nossa sociedade?

Penso que o povo brasileiro é muito bom, aberto, receptivo, caloroso e parece apreciar os ensinamentos. Há muita intuição sobre o Darma e seu significado. Muito bom!

Dentre todos os ensinamentos do Buda, você poderia apontar aquele que acredita ser o mais apropriado e efetivo para a busca atual de nossa sociedade pelo bem-estar?

Consciência (awareness).


Entrevista concedida por Mingyur Rinpoche, durante retiro sobre a Natureza da Mente, em São Paulo, junho de 2018. Agradecimento especial aos coordenadores da Tergar Brasil.


Saiba mais

Em 2017, Mingyur Rinpoche também nos concedeu uma entrevista. Na ocasião, ele falou com a gente sobre a morte. Confira aqui →


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1 Comentário

  1. Ronaldo Augusto Alves Guimarães disse:

    Li e reli essa entrevista …cada vez absorvendo mais ensinamentos …e vou continuar… Tive a honra de ter Tomado Refúgio em 24/06/2007, em Brasília, com Minjur Dorme Rinpoche.

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