No dia 17/11/2002, em Três Coroas-RS, ele realizou Tukdam, permanecendo em meditação mesmo depois da morte; veja descrição no “The Treasury of Lives”
Em seus últimos anos, o Senhor da Dança — o incomparável Chagdud Tulku Rinpoche — decidiu instalar e instaurar sua base no Brasil.
Nascido no dia 12 de agosto de 1930, na parte oriental do Tibete, se estivesse vivo em 2025 faria exatos 95 anos de idade.
Foi reconhecido ainda criança como um tulku (espécie de reencarnação de um mestre de meditação, como sendo a 16ª encarnação de Tenpel Djaltsen), tendo recebido treinamentos desde cedo e se aprofundado em retiros extensos.
Devido à ocupação da China no Tibete, em 1959, Chagdud escapou vivendo em exílio na Índia e no Nepal, em comunidades de refugiados. Vinte anos depois, ele seguiu para os EUA, onde se estabeleceu criando a Fundação Chagdud Gonpa.
No ano de 1994, ele veio para o Brasil, país onde construiu o Chagdud Gonpa Khadro Ling, em Três Coroas, município do Rio Grande do Sul, o primeiro templo tibetano tradicional da América do Sul.
Chagdud fez o parinirvana no ano de 2002, justamente em Três Coroas-RS, deixando ensinamentos preciosos e vasta sangha, não apenas no Brasil e nos EUA, mas também no Uruguai e no Chile.
A Revista Bodisatva traz hoje uma descrição dos últimos momentos desse grande mestre realizado a partir do tradutor e escritor Joseph McClellan, que é PhD em Religião pela Universidade de Columbia. O ensaio em que consta este trecho abaixo está na íntegra no website “The Treasury of Lives”, uma espécie de enciclopédia biográfica online do Tibete, Ásia Central e Himalaias, que pode ser acessada pelo treasuryoflives.org.
Do fim dos anos 1990 até o início dos 2000, a saúde de Chagdud Tulku foi sendo cada vez mais afetada pela diabetes e por problemas cardíacos. Em 2002, ele cancelou uma viagem programada aos Estados Unidos e permaneceu em retiro em Khadro Ling, fazendo práticas de longevidade. Quando Chagdud Tulku determinou que não se recuperaria, ele combinou de ensinar Powa na semana seguinte. Apesar do curto prazo, mais de 200 de seus discípulos chegaram para receber as instruções. Ele não se sentiu bem durante os ensinamentos, mas não pôde ser persuadido a consultar um cardiologista. Em 16 de novembro de 2002, ele parou de ensinar por volta das 21h30 e retornou aos seus aposentos no alto do templo.
Segundo o Snow Lion Publications Newsletter daquele ano, por volta das 4h15 da madrugada, no horário de verão brasileiro, ele sofreu uma parada cardíaca fulminante enquanto estava sentado na cama. Permaneceu em meditação [Tukdam] por cinco dias, durante os quais seu corpo manteve uma postura natural e não apresentou sinais de deterioração. Muitos podiam sentir sua presença como uma abundância de bênçãos indescritíveis.

Na manhã do sexto dia, exatamente quando Jigme Rinpoche e vários outros lamas estavam prestes a realizar uma cerimônia para solicitar que ele interrompesse sua meditação, a consciência de Rinpoche finalmente deixou seu corpo. Embora isso parecesse lamentável, tornou-se então possível lidar com o corpo de acordo com as normas brasileiras.
Dias depois, o corpo de Chagdud Tulku foi levado de avião ao Nepal, e as tradicionais cerimônias funerárias de quarenta e nove dias ocorreram no centro de retiro Katok, que ele havia construído anos antes. Os rituais foram conduzidos por Katok Getse Gyurme Tenpa Gyeltsen e pelo filho de Chagdud Tulku, Tulku Jigme Tromge. Outros lamas prestaram suas homenagens, incluindo Chokyi Nyima Rinpoche (nascido em 1951) e Tsikey Chokling (1953–2010). A cerimônia foi concluída pelo lama de mais alta hierarquia do Monastério Katok, Katok Moktsa Jigdrel Lodro Tenpe Gyaltsen (1930–2022), que viajou do Tibete para a ocasião.
A reencarnação de Chagdud Tulku foi reconhecida no Tibete por Khenpo Ngakchung, o renascimento de Khenpo Ngawang Pelzang. O 17º Chagdud Tulku tem permanecido no Tibete, recebendo treinamento tradicional, sustentado em grande parte por seus estudantes ocidentais, que esperam que ele eventualmente retorne para ensinar e conceder transmissões.
Chagdud Tulku Rinpoche autorizou vários estudantes ocidentais a ensinarem dentro de sua linhagem. Quando ele começou a encontrar estudantes ocidentais na Índia e no Nepal, na década de 1970, ele recordou: “Alguns tibetanos me alertaram para não me envolver com ocidentais, dizendo que eles não eram estudantes leais e que iam de lama em lama, sem realmente aplicar o que ouviam. Essa não tem sido a minha experiência de maneira geral e, ao longo dos anos, encontrei estudantes ocidentais que qualquer lama valorizaria como detentores puros de sua linhagem.”

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Joseph McClellan, “Chagdud Tulku Pema Gargyi Wangchuk,” Treasury of Lives, acessado em 15 de novembro de 2025, http://treasuryoflives.org/biographies/view/Chagdud-Tulku-Pema-Gargyi-Wangchuk/12981.
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SAIBA MAIS
Na Revista Bodisatva, você encontra alguns dos ensinamentos deste precioso mestre, que foram revisitados pela nossa seção Acervo:
Matéria publicada em 20/11/2025
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