O caminho budista – Parte 2

Ensinamentos da palestra de abertura do ano


Por
Revisão: Guilherme Erhardt e Kelly Pazello
Edição: Elise Bozzetto
Transcrição: Cláudia Laux, Elise Bozzetto, Guta Teixeira, Mariana Luz e Mariana Martins Molinari

No dia 1º de janeiro de 2023, durante a programação da 23ª edição do “108 Horas de Paz”, aconteceu a tradicional palestra de abertura do ano do nosso querido mestre Lama Padma Samten. Parte do ensinamento está transcrita neste texto.

A Parte 1 pode ser lida aqui.


Onde estamos?

Estamos vinculados a construções mentais. E quando desenvolvemos essas construções, também construímos identidades. Mas, nós não somos isso. Essas identidades mudam. Vocês já viram isso. Essas identidades mudam e, como a gente não se dá conta disso, temos a sensação de morte quando elas entram em colapso. De tanto em tanto, o nosso corpo entra em colapso e nós temos uma sensação de morte que vem da finalização de olhos, ouvidos, nariz, língua e tato. Só isso. 

A consciência do Buda entende perfeitamente a dissolução dos olhos, dos ouvidos, de cada um dos sentidos físicos. A dissolução do elemento terra (quando perdemos a força), a dissolução do elemento água (quando perdemos a capacidade de movimento), a dissolução do elemento fogo (quando não temos mais calor, o calor do corpo se esvai), a dissolução do elemento ar (quando a respiração não acontece mais) e a dissolução do elemento da luminosidade da mente (quando a mente que estava vinculada a olhos, ouvidos, nariz, língua e tato não tem mais olhos, ouvidos, nariz, língua e tato). 

É como se estivéssemos em uma sala escura, mas dentro dela, podemos ficar presos no escuro ou reconhecer o escuro. A mente que reconhece o escuro é lúcida, como sempre foi. Se aqui apagar totalmente a luz, nós estamos conscientes dentro desse escuro. Dentro do estado escuro da mente, que brota da dissolução das cinco consciências associadas aos sentidos físicos, a sexta consciência se dissolve na Consciência Primordial incessantemente presente. Isso porque a sexta consciência, na sua operação com olhos, ouvidos, nariz, língua e tato, não está mais atuando, pois não tem estímulo. Tudo surge como se fosse uma escuridão, mas essa escuridão é a mesma coisa que o computador sente quando a internet cai. É só isso. 

O computador está vivo, vocês já devem ter visto. Você conecta a internet e ele funciona de novo. A mente que sonha está livre, ela pode sonhar de novo. Esse é um ponto interessante. Quando se apaga esse processo de hábito associado a olhos, ouvidos, nariz, língua e tato, nós temos uma escuridão dos olhos, uma escuridão dos ouvidos, mas nós estamos lá. Essa consciência é Alayavijnana. Eu também posso perceber essa consciência como Consciência Primordial. Eu me livro das marcas mentais e reconheço a consciência como a Consciência Primordial incessantemente presente. 

Então, se diz que na passagem da morte se pode ver isso. Mas o Buda, durante a vida, cruzou esses múltiplos estados. Ele viu e reconheceu essa condição livre em vida. Não precisou morrer para reconhecer. Ele viu. Então, ele se torna o liberto. Totalmente liberto dos estados. Quando morremos, nós não estamos libertos, porque a base, as sementes que vão eclodir carmicamente e vão fazer brotar os sonhos de vida e morte, estão presentes. Mas o Buda desenraizou as sementes todas, atravessou isso tudo. É a partir dessa experiência que surgem os ensinamentos do Buda. Vocês vão ver que nas múltiplas Sangas, eventualmente, tem mais ênfase numa coisa, mais ênfase noutra, ou noutra ainda. E é muito importante que nós tenhamos uma noção de trajeto, para entendermos o que as diferentes Sangas estão fazendo, o que as diferentes práticas estão promovendo. 

As diferentes escolas

De modo geral, todas as Sangas vão estimular algum nível de disciplina da mente. Se não é a Sanga, uma escola também vai tentar trazer disciplina para a mente, provavelmente. Se a pessoa não teve essa habilidade, não teve essa oportunidade, sempre vai ter alguém que vai dizer: “Agora você se concentra aqui e faz isso”. E a pessoa, mais ou menos, se concentra e faz aquilo. 

A concentração da mente é essencial. No Budismo, nós podemos desenvolver isso imediatamente através de shamata. Eu vou descrever esse caminho através do roteiro de Visão, Meditação e Ação. Dudjom Rinpoche, antes de Visão, Meditação e Ação, introduz Shamata. Eu posso ter muitas diferentes práticas anteriores à Visão, mas existe uma prática muito rápida, muito direta, muito descomplicada que é, enfim, o que o Buda propôs, que é o caminho de Shamata. 

Esse é um ponto interessante, porque tem uma variedade de métodos que surgiram não só através do Buda, mas de múltiplos mestres posteriores. O caminho antes de Visão, é um caminho variado. E essas várias opções, por vezes, naturalmente surgem como se fossem linhagens. E essas linhagens apresentam aquilo como se fosse o topo do topo. Nós só vamos perceber que não é um caminho único, não por dentro da própria linhagem, mas pelo fato de ver que tem múltiplas linhagens propondo diferentes visões e todo mundo se chama budista. Aqui [referindo-se à pintura no Templo Caminho do Meio] nós temos 21 manifestações de Tara. Então só aqui tem 21 caminhos. 

Ontem nós fizemos a prática concisa de Tara Vermelha, uma parte dela, e, no entanto, nós temos Tara Branca, temos Tara Verde, o que nós vamos escolher? Vemos que Tara Branca leva até o fim do caminho, Tara Verde leva até o fim do caminho, Tara Vermelha leva até o fim do caminho, Chenrezig leva até o fim do caminho. São abordagens específicas. Aqui tem uma abordagem específica, que é shamata: nós sentamos em silêncio como Buda fez. Olhem o Buda Amitabha: ele está sentado em absorção meditativa, o mudra da mente equilibrada. O caminho aparentemente mais direto, é o que funciona para nós (se não funciona, fazemos outra coisa). Mas todos nós temos implicitamente a possibilidade de simplesmente sentarmos dentro de uma calma natural. É simplesmente sentar dentro de uma calma natural. 

A concentração da mente é essencial. No Budismo, nós podemos desenvolver isso imediatamente através de shamata. Eu vou descrever esse caminho através do roteiro de Visão, Meditação e Ação. Dudjom Rinpoche, antes de Visão, Meditação e Ação, introduz Shamata. Eu posso ter muitas diferentes práticas anteriores à Visão, mas existe uma prática muito rápida, muito direta, muito descomplicada que é, enfim, o que o Buda propôs, que é o caminho de Shamata. 

Shamata não é ponto final

Dudjom Rinpoche diz: “Se, sentando dentro dessa calma natural, você chegar, imediatamente ou progressivamente, numa condição que você sente que aquilo é tudo, que nada mais precisa ser feito, você atingiu uma estabilidade da qual não aspira se mover, você tem esse nível de conexão e sente que isso é tudo, então você está iludido”. Mas esse é um bom sinal. Não é tudo isso que você está achando, mas você atingiua realização de shamata. Agora a sua mente está aliada a você, está aliada ao caminho. Como essa concentração surgiu, temos a capacidade de colocar a mente aqui, ali, ou acolá e ver o que está acontecendo. 

A mente se torna um auxiliar do caminho. Até então ela era um obstáculo, porque é através dessa mente que Mara nos leva para um lado e para outro. Essa mesma mente está indisciplinada, está sem a capacidade de concentração. É simplesmente arrastada pelas aparências de olhos, ouvidos, nariz, língua e tato. E nós andamos caoticamente, que é o diagnóstico geral. Assim nós vagueamos pelos vários mundos. Nós reconhecemos esse aspecto.. Quando shamata finaliza, a visão pode ser apresentada, pois para aquilo que é falado, temos uma mente que é capaz de percorrer e seguir. 

A introdução à Visão foi apresentada por muitos diferentes mestres, não só o Buda. O Buda falou extensamente sobre isso. Também Garab Dorje, Manjushrimitra: é a especialidade dessa linhagem apresentar a Visão. A apresentação de Visão está em todas as linhagens.

Na sequência, uma vez que capturamos aquilo, entendemos Visão. Visão seria assim: “Veja, isso é o que você é. Essa natureza última é o que você é”. Curiosamente, quando entendemos que essa natureza última é o que somos, nós deixamos de ser, porque as identidades são fixações a aspectos particulares. Se entendemos esse aspecto amplo, nós deixamos de ser uma identidade. Aquilo, às vezes, fica meio problemático, do tipo: “Como é que eu me manifesto no mundo?”. Ao se manifestar no mundo, a pessoa tem a possibilidade de entrar em diferentes mundos, como o próprio Buda faz. Ele entra em diferentes mundos e dentro daqueles mundos ele tem uma face. Olhem: cada um dos reinos do Samsara tem um Buda. Em cada lugar o Buda tem uma aparência específica, pois é o jeito dele de ser visto por aqueles seres. Não interpretem mal o Buda, mas dentro dos infernos ele não tem uma cara muito boa. Lá ele tem uma cara dos seres dos infernos, porque é o jeito que ele vai ser reconhecido. 

Os seres não vêem os outros que não tem uma aparência igual. Então, o Buda surge no reino humano com uma aparência humana, senão ele também não é visto. A isso, enfim, nós poderíamos dar o título: Descobrindo a natureza verdadeira dos OVNIS, porque o Buda é um OVNI. Ele é um ser de outro lugar que se manifesta. Como é que os seres de outros lugares se manifestam? Iguaizinhos a nós: apresentam a mesma cara, só que eles funcionam diferente. Mais difícil de localizar. Esse é o Buda. Ele não é aquilo. É como um irmão nosso. Ele nunca é aquele cara, nós sabemos que ele não é aquilo que ele está querendo mostrar. Ele não é. Esse é o ponto. E todos nós somos mais ou menos isso: somos viajantes por dentro dos nossos mundos. E esses mundos em que viajamos por dentro geram as identidades que nós somos. 

Mesmo que a pessoa seja completamente coerente, ela é completamente coerente em relação ao seu mundo particular, mas aquilo é muito particular. O Buda vai ganhar a liberdade frente a isso. Visão é aquilo que aponta para essa natureza livre. Nós vemos isso e nos perdemos pelas aparências, que vamos entender, essencialmente, como as conexões cármicas que estão presentes e que não purificamos. E essas conexões cármicas nos reintroduzem em mundos particulares. É o que acontece quando chega Natal, Ano Novo. Sentamos no colo da mãe de novo. A mãe traz um presente: “Ah! Que bom, mamãe, eu não como nada disso, mas tudo bem”. Voltamos a um mundo que já desapareceu. Nós não estamos ali, aquilo não existe mais, mas nós voltamos a viajar naqueles lugares. Percebemos que não somos mais aquilo: “Mãe, eu cresci, agora eu tenho outras ideias”. “Mas, para mim, você é sempre a minha filhinha, porque eu lembro que quando você tinha dois anos de idade, você foi passar as férias longe e eu chorei as férias inteiras e eu nunca contei isso pra você, mas foi isso”.

Ficamos presos: retornamos à cidade onde moramos enquanto crianças e lá está o quarto intacto: “Olha o seu ursinho… esse aqui é o travesseiro que você dormia… esse aqui é o seu cabide, as suas roupas. Quando você fez 12 anos, você já era grandinha, então eu guardei essa roupa aqui que é a roupa…”.

Mesmo que a pessoa seja completamente coerente, ela é completamente coerenteem relação ao seu mundo particular, mas aquilo é muito particular. O Buda vai ganhar a liberdade frente a isso. Visão é aquilo que aponta para essa natureza livre. Nós vemos isso e nos perdemos pelas aparências, que vamos entender, essencialmente, como as conexões cármicas que estão presentes e que não purificamos.E essas conexões cármicas nos reintroduzem em mundos particulares.

Temos esses mundos anteriores e os atravessamos. Nós não somos mais isso, porque a nossa natureza é livre. Mas nós temos vinculações cármicas, nós voltamos a isso. Existe uma parte que é muito longa, que pode ser essa parte de shamata. Até que ganhemos essa experiência de estabilidade e, aparentemente, não há como ir adiante sem ganhar essa mente que vai andar. Se eu não tiver a mente que vai seguir o caminho, como é que eu vou seguir o caminho, pessoal? Eu preciso dessa estabilidade. Por isso, shamata é completamente necessária. Nós vamos ter que praticar. Ou praticamos shamata de outro modo, ganhamos uma estabilidade da mente de outro modo ou direto, sentando.

O caminho do Zen é sentar direto. Aquilo não é shamata, é chamado de Zazen. O mestre Dogen não vai dizer: “Primeiro pratique shamata para depois praticar a lucidez”. Ele diz: “Agora você pratica lucidez sentado”. Se der certo, tudo bem. Se não der certo, segue praticando. É um caminho no qual a gente começa fazendo uma coisa e mantendo a mesma cara, o mesmo lugar, a mesma almofada, a mesma parede. A pessoa vai atravessando os vários mundos das fixações, vai ultrapassando. Isso é mais fácil falar do que fazer. Nós também podemos nos prender em vários estados mentais sem nos dar conta dentro desse processo. Por isso que há essas instruções: eu sigo em shamata até realizar shamata. Depois, eu vou fazer outra coisa. 

Depois de shamata nós entramos em vipassana, que é essa visão profunda. É, enfim, a capacidade de reconhecer a natureza última. E a gente pensa: “Terminou”. Mas não, porque ainda temos as estruturas cármicas vigentes e nós nos perdemos facilmente. Assim, nós precisamos fazer a prática de meditação, que vai nos ajudar a entrar nas múltiplas experiências que estabilizam a visão. Essa é uma etapa relativamente longa, que a gente pode fazer sentado ouconectado ao ambiente. E, também, na prática de Tsog, como ontem. Ainda com o som, com a música, com as múltiplas aparências e interagindo no mundo, nos vários lugares. Nós podemos fazer essa prática porque é uma prática na qual nós buscamos trazer benefício aos outros seres e também andamos por mundos específicos, tentando manter a lucidez.

Usando obstáculos para ultrapassar regiões cármicas

Lucidez é a visão que a gente aprendeu. Essa é uma etapa interessante.Começamos com o silêncio e vamos incorporando outras experiências. A gente termina descobrindo que as experiências que são problemáticas, que nos tiram da estabilidade, se tornam experiências muito especiais. Justamente porque permitem que entremos em regiões  cármicas, para ultrapassá-las. Diferentes mestres descrevem que os obstáculos se transformam num apoio precioso para a própria prática. 

Quando ouvem sobre isso, vocês sabem que estão numa etapa de estabilização da visão, que vem depois da visão surgir. Isso equivale à própria prática de meditação que, num certo estágio, pode ser chamada de “não-meditação”:é uma meditação de lucidez. Sendo uma meditação de lucidez, ela não precisa de um ambiente específico, uma artificialidade específica. Por vezes, isso é chamado de “não-meditação”, porque não tem uma artificialidade. Pode ser praticado nas circunstâncias que aparecem no cotidiano. Isso é superimportante. Por exemplo, quando Chagdud Rinpoche chegou por aqui, as pessoas lhe  perguntavam quantas horas de meditação por dia ele praticava. As pessoas ficavam fixadas a um mestre que ficasse em shamata o dia inteiro. Eu lembro do Chagdud Rinpoche respondendo: “24 horas”.

O Rinpoche fazia uma face que não se movia, isso quando ele queria que essa face não se movesse. Ele era bem divertido também. Ele falava: “24 horas”. O que isso significava? Significava que tanto fazia se ele estivesse numa prática formal ou não. Ele estava numa prática de lucidez. Essencialmente isso. Rinpoche dizia: “De que adianta a pessoa praticar duas horas uma mente disciplinada e as outras 22 horas praticar uma mente enlouquecida? Quem é que vai ganhar?”. Este é o raciocínio. Isso está ligado aos ensinamentos que dizem: “Quando nós praticamos formalmente, quando a gente se levanta da prática formal, a prática segue”.

Isso não quer dizer que a gente coloca o olho para frente e sai parecendo um lunático., Isso é até um risco e a pessoa pode ser internada. Se a pessoa acha que está iluminada, sempre tem um psiquiatra na porta que vai lá e interna.  

Aliás, estes pontos de internar são muito interessantes. Eu vou contar uma história. Chagdud Rinpoche contou isso: ele era um jovem Rinpoche, estava viajando. No meio daquelas viagens no Tibet. Ele estava em cima de um cavalo, pessoas o acompanhavam com todo um ritual: como que sobe no cavalo, como que anda, o que tem que fazer em cada lugar. Com o canto do olho, ele viu um grande cerimonial vindo pela mesma estrada. Era um grande Rinpoche que vinha vindo por lá. Ele pensou: “Isso vai dar uma complicação porque nós vamos nos encontrar e eu vou descer do cavalo, vou fazer prostração, vou fazer oferenda e ele vai me dar ensinamentos.Esta é a prática e eu estou a fim de escapar disso”. Então, Chagdud entrou numa estrada secundária e foi andando. Mas, provavelmente, o outro Rinpoche também pensou isso e pegou a mesma estrada secundária. Encontraram-se. E o Rinpoche desceu, fez prostração, oferenda, aquilo tudo, foi lá e cumprimentou, chegou perto do outro, o outro mestre colocou a mão na cabeça dele e disse: “Libera tua mente!”. Aquilo caiu como um raio no Rinpoche. Chagdud paralisou. Seu  assistente o pegou e o colocou em cima do cavalo. E ele seguia paralisado. Eles foram andando, era uma viagem longa e pararam em algum lugar. Chagdud seguia parado em cima do cavalo. E o atendente já está achando aquilo meio estranho. Tira do cavalo, leva e dá comida. Mas ele ainda está parado sob aquele impacto da mente do Rinpoche que ele encontrou. Quando chegam no mosteiro que eles iam ficar, o Chagdud não desce do cavalo. Fica lá parado.  Às vezes a paciência dos atendentes vai se esgotando também. Leva o Rinpoche até o altar,  coloca-o de frente ao altar e ele continua parado. Então, o atendente foi atrás de alguém que pudesse ajudar.

Havia um mestre naquele local que era muito interessante. Um mestre daqueles informais, cheio de meios hábeis e que não levam muito a sério a coisa no sentido formal. Esse mestre diz: “Eu sei o que fazer.” Chegou lá para o Chagdud Rinpoche e disse: “Você está pretendendo estar iluminado! Você não está iluminado! Você está  condicionado. Sua mente é uma mente limitada. Você não é nada”.  Deu um calorão no Chagdud Rinpoche…(risos) e ele se salvou daquele estado. É bonito isso: os estados particulares de mente que brotam com a meditação. O Buda está liberto disso.

A gente não precisa entrar e nem se fixar nisso. Assim, o que esse outro mestre trouxe a Chagdud? Ele trouxe o cotidiano. E o cotidiano nos desafia. O cotidiano rompe as nossas artificialidades. Os nossos obstáculos se tornam os auxiliares da prática, desde que a gente consiga olhar aquilo dentro da prática. Pode ser que a gente simplesmente fique preso na raiva e não consiga se livrar dela. Mas não é isso. A pessoa vê aquilo, e aquilo quebra a artificialidade. E quando quebra artificialidade, a pessoa suspira e se livra. Livra-se verdadeiramente daquilo. 

Isso é muito importante para a gente perceber que não estamos caminhando para estados artificiais de mente. Quando nós estamos treinando shamata ou treinando visão, nós não somos uma identidade em construção que vai ficar fixada em alguma coisa. Isso é um obstáculo,porque nós não estamos acostumados a não ser identidades. Trungpa Rinpoche vai chamar esses obstáculos de materialismo espiritual: que é quando a gente toma um ensinamento, se fixa nele e toma aquilo como atributo de uma identidade. Se a pessoa não ouvisse os ensinamentos e não seguisse também não daria. Mas a pessoa ouve, segue e aquilo surge um pouco também como obstáculo. Então, nós vamos ultrapassando isso. Por isso que se diz que é difícil nós avançarmos sem alguém, sem um mestre que nos ajude a ultrapassar as várias pontes, as várias passagens estreitas onde a gente pode facilmente ficar fixado por uma vida, duas vidas, três vidas. 

Se a gente tiver habilidade, podemos construir linhagens budistas e não budistas fixadas em aspectos particulares. E é possível ter êxito em manter aquilo funcionando. Então nós vamos ultrapassando esses caminhos. Isso está ligado à visão e à meditação. O aspecto importante, relevante da meditação, é quando a gente passa a ver os obstáculos como partes muito favoráveis do próprio caminho. 

O cotidiano nos desafia. O cotidiano rompe as nossas artificialidades. Aquilo que são os nossos obstáculos se tornam os auxiliares da prática, desde que a gente consiga olhar aquilo dentro da prática. Pode ser que a gente simplesmente fique preso na raiva e não consiga se livrar dela. Mas não é isso. A pessoa vê aquilo, e aquilo quebra a artificialidade. E quando quebra essa artificialidade, a pessoa suspira e se livra. Livra-se verdadeiramente daquilo. 

Às vezes surge esta prece: “Que o meu carma amadureça rápido”. Isso é uma prece para pessoas muito corajosas. Como se fosse: “Tão logo eu faça uma coisa equivocada, que a paulada na cabeça venha rápido. Que eu não fique preso até o fim da vida, sem levar essa paulada. Que aquilo venha rápido”. Isso é muito precioso. Nós andamos no caminho e estamos expostos. Tem um momento em que nós vamos aspirar isto do mestre. A gente vai pensar: “Não, os mestres que sorriem para mim, esses eu não quero. Eu quero os mestres que me destroem”. 

A gente precisa aprender a utilizar os obstáculos como caminho. Esse é o ponto. E os obstáculos surgem, vocês não se preocupem. Não pensem: “Será que os obstáculos aparecem?”Aquilo aparece, não se preocupem. Essa fé vocês precisam ter: os obstáculos sempre aparecem. Sempre dá certo..(risos).

Meditação: um pilão para moer nossas identidades

Isso é meditação. Nós temos um período longo. Neste período de meditação, a gente entra com uma identidade e sai sem identidade. No Zen, isso é descrito como se fôssemos grãos de arroz dentro de um pilão. E a vida é uma prática da mão do pilão batendo. Essa é a razão para vocês não seguirem o Zen (risos). O pilão fica batendo até que a nossa casca seja moída,porque nos confundimos com a nossa casca. Nós nos confundimos com a multiplicidade das fixações que vão nos apresentar como aquela casca. Nós nos descrevemos daquele modo. Qual é a nossa foto? A nossa foto é com casca e tudo. A foto não revela o aspecto verdadeiro interno. Ela mostra a casca. Esse é o problema.

Vem a mão do pilão, que é a vida, e nós aprendemos que o mestre é a mão do pilão. Mas isso não quer dizer que um mestre Zen é quem vai trazer os obstáculos. Não, um mestre Zen vai ajudar a pessoa a entender que quando a casca começa a se soltar a pessoa começa a se afligir. A pessoa pode pensar que soltar a casca é o problema e não soltar a casca é o método. Esse é o ponto.

Mesmo tendo ouvido a visão, a gente está com a casca. O caminho da meditação vai levar desta casca para a estrutura que vê e dialoga com a estrutura que está dentro da casca. E ela vai nos levar até o ponto onde a casca mesma é retirada. Na verdade, a casca não é mesmo retirada. A noção de casca é o início, mas no fim não tem casca. Nós vamos descobrir que a casca e o núcleo são inseparáveis. Eles são luminosos, não há separação daquele grão, nem dos outros grãos todos. Nós vamos ultrapassar todas essas visões.

Temos um início de visão, no qual parece que a gente vai perder a casca. E tem um momento em que a gente vai iluminar a casca. A casca e o interior são inseparáveis, como eles sempre foram.  E nós vamos em direção à cessação. A cessação do aspecto ilusório. Nós não vamos para estados particulares de mente. E essa é uma passagem difícil. Ela se dá por dentro da categoria de ensinamento chamada meditação. A meditação tem muitas nuances. E a nossa mente vai mudando. Ela vai mudar. Nós vamos abandonar as oitos consciências. Nós vamos atravessar uma porta e vamos operar uma mente livre do tempo e do espaço. Dito assim, parece muito complicado, mas quando já estamos livres do espaço e do tempo, a gente pode entender que eles são uma artificialidade que surge junto com os mundos como nós estamos olhando. 

Não é que a gente atravesse. A gente recupera, a gente tira aquilo que é artificial. Quando o aspecto artificial cessa, nós nos vemos dentro dessa condição livre de espaço e de tempo e ela tem lucidez. Nós ainda vamos pensar essa lucidez como individual, mas mais adiante nós vamos ver a etapa final de Guru Yoga. Nós estamos como sempre estivemos e em nenhum momento isso foi diferente. Nós somos inseparáveis do Buda Primordial. Tudo que em nós não é o Buda Primordial, são construções artificiais que foram estabelecidas. E nós repousamos nessa condição. Mas com a possibilidade de surgir com estados particulares de mente que nós vamos chamar de sambhogakaya. E com corpos grosseiros que nós vamos chamar de nirmanakaya, como o próprio Buda surge. Esse é o final da etapa de meditação, quando nós entramos no estado de ação e fruição. 

A importância da paciência

A fruição é quando isso ocorre de um modo totalmente natural. Esses ensinamentos são variados. Isso é um trajeto que aqui está descrito, mas os ensinamentos dentro desses trajetos podem ser variados. O ponto mais importante que eu sempre tenho enfatizado é a paciência. Por exemplo, não é propriamente corrigir a ação do outro ou a própria ação. É se manter paciente com relação aos seus obstáculos, olhando de novo a direção que nós temos que andar. Como estamos com obstáculos, nós vamos cometer erros. Mas não vamos corrigir os erros,  vamos refazer a motivação e andar na direção que nós precisamos andar. Não imaginem que nós vamos andar de modo reto. Nós não vamos andar de modo reto. Nós vamos andar com todas as nossas fraquezas, as nossas oscilações, os nossos obstáculos. Mas nós estamos andando numa certa direção. A gente precisa ter paciência conosco mesmo, não cobrar coerência, porque nós não vamos ser coerentes. Nós vamos cometer erros de vários tipos. Então, que essa parte não nos prenda. Erros tudo bem. O ponto não é o erro. O ponto é em que direção eu devo andar. 

Por vezes, a gente não tem uma clareza completa do caminho. Usualmente, a gente não tem uma clareza completa. Mas também não se preocupem. Por quê? Porque é como quem faz uma viagem de carro. A pessoa não tem a visão toda da estrada quevai percorrer ,de tudo que vai acontecer, de todos os sinais que abrem e fecham. 

A pessoa não tem isso. Ela tem noção da viagem. Quando entra na viagem, tem uma noção estratégica e durante o período, vai fazer o que precisa fazer. E ela vai cometer erros. Que a gente esteja o mais lúcido possível para que os erros sejam menores e a gente consiga avançar. 

Eu comecei com shamata. Isso é uma classe de ensinamentos que a gente vai puxar até fruição. Mas antes de shamata, pessoal, tem uma vastidão de ensinamentos que correspondem aos três éons onde o Buda andou. Se, de algum modo, a gente não fizer esses ensinamentos antes, mesmo que seja rápido, a gente não tem como sentar e aquilo funcionar.A gente vai sentar e não vai funcionar. Por quê? Porque nós estamos tumultuados. Nós estamos totalmente vulneráveis e sensíveis a Mara. Mara aparece e nós andamos para cá ou para lá. Eu gosto da autobiografia dos mestres porque eles são muito sinceros. Eles vão falando todas as cracas. 

O ponto mais importante que eu sempre tenho enfatizado é a paciência. Por exemplo, não é propriamente corrigir a ação do outro ou a própria ação, é se manter paciente com relação aos seus obstáculos, olhando de novo a direção que nós temos que andar. Como nós estamos com obstáculos, nós vamos cometer erros. Mas nós não vamos corrigir os erros, nós vamos refazer a motivação e andar na direção que nós precisamos andar. 

Sua Santidade o Dalai Lama tinha medo dos ratos que corriam no altar do Potala. Aquilo era muito grande para uma criança. Estranho, obscuro, úmido e um pouco escuro. Aquilo não é muito fácil, pessoal.Uma criança naquela condição não é muito fácil. O Dalai Lama sentiu isso. Ele teve responsabilidades desde muito jovem, responsabilidades de Estado gravíssimas. O Rinpoche que o encontrou quando ele nasceu foi assassinado. O ambiente não era  leve, vocês podem imaginar o que é isso. E ninguém foi preso, ninguém foi julgado e nada foi esclarecido. Ele está dentro de um ambiente relativamente perigoso, sendo que também está sendo pressionado pelos próprios chineses que estão se aproximando, invadindo, ameaçando, seduzindo. E ele era um jovem, um adolescente. Isso não é uma coisa fácil. 

As nossas vidas não são fáceis. Nós não andamos de uma forma coerente, de uma forma totalmente coerente. Por exemplo, Sua Santidade o Dalai Lama foi amigo do Mao Tsé-Tung. Ele foi o presidente do partido comunista tibetano, do setor tibetano do partido comunista chinês. Ele assumiu cargos dentro do partido. Não é muito fácil esse movimento, não é nada fácil. Sua Santidade o Dalai Lama lembra com carinho do Mao Tsé-Tung, queera uma figura protetora para ele. Quando Mao Tsé-Tung disse que as religiões eram desnecessárias, aquilo abriu uma separação entre eles.

Cada um dos grandes mestres falam sobre suas vidas, suas situações, etc. Eu não vou ficar abrindo as “cracas”, mas de modo geral eu fico guardando isso na mente, porque eu acho superimportante que a gente se perdoe das próprias dificuldades. É muito importante que a gente se perdoe. Perda de tempo se julgar, pessoal. Nós vamos cometer muitos erros. Isso é inevitável. Não vamos julgar ninguém, nem vamos perder tempo julgando a nós mesmos. 

Pensem: o Buda em 3 éons não atingiu a iluminação. Andou por todos os lados, teve corpos de vários reinos, andou pelos infernos, andou por todo lugar. Ele podia pensar: “Que coisa inútil, isso era tão simples”. Então, não se preocupem, porque o nosso caminho não é reto. Não cobrem essa retidão. A gente restabelece a retidão cada vez que a gente vê o caminho como um todo. É um caminho reto como ir daqui a Salvador. A gente sai daqui a Salvador, mas não é reto, pessoal. Quem vai fazer o caminho, vai fazer assim (faz um gesto com as mãos). Sobe e desce, e vai fazer muitas ações aparentemente incoerentes. Mas no meio de todo esse zigue-zague a gente chega lá. 

Como é que a gente mantém a rota? Pela motivação. A gente olha a motivação e se mantém em marcha. O que é reto é a motivação. E se a motivação oscila, ok.Mais adiante a gente refaz a motivação e segue. A gente não desenvolve um amargor pelo próprio caminho. Essa é uma etapa anterior a shamata. Eu preciso pacificar, eu não tenho como seguir o caminho deixando algum inimigo para trás. O inimigo vai ficar muito pesado, muito, muito pesado e não consigo ir adiante. A gente precisa fazer prática de shamata e olhar amorosamente os seres, todos eles. Ninguém para trás. Mesmo os seres que vocês não tiverem como levar junto, mantenham um olhar elevado…deixem para trás, mas mantenham um olhar elevado. Esse é o ponto. Não cobrem coerência de vocês.

Eu acho superimportante que a gente se perdoe das próprias dificuldades. É muito importante que a gente se perdoe. Perda de tempo se julgar, pessoal. Nós vamos cometer muitos erros, isso é inevitável. Não vamos julgar ninguém, nem vamos perder tempo julgando a nós mesmos. 

É sempre muito comovente para mim: têm grandes mestres como Huineng, como o próprio Buda. Vocês vejam: o Buda deixa para trás a mãe, que enfim era madrasta dele, irmã da mãe que morreu. Deixa esposa, deixa filho, deixa pai, deixa reino, deixa toda a visão de que ele precisava estar ali para proteger todas aquelas pessoas do reino e fazer boas coisas, promover boas iniciativas. Quem vai cuidar daquelas pessoas? Ele sai meio sem rumo, buscando alguma coisa muito impossível. Aquilo é pesado. 

Outro exemplo, dizem que o Huineng cuidava da mãe. Ele era um adolescente, que a mãe cuidou até a adolescência. E ele escuta o Sutra do Diamante de uma pessoa que estava passando e ele pergunta: “Onde é que você ouviu isso?”. A pessoa responde: “No mosteiro tal”. O Huineng vai embora e nunca mais conta nada sobre a mãe dele. Não ficou sabendo mais nada e não sei o que aconteceu com a mãe do Huineng. Ele era a pessoa que cuidava dela e que provia os meios para ela. Vai deixar a mãe para trás? Ele deixou, pessoal.  Ele chega no mosteiro e estava pronto, maravilhoso. Ele encontra a mãe dele, que é o próprio Buda. 

Por outro lado,, o Buda Shakyamuni ainda consegue voltar e encontra a mãe, o pai, o filho e a esposa. Todos eles vão atingir a liberação, vão atingir renascimentos favoráveis, vão atingir coisas favoráveis. O Buda Shakyamuni foi super hábil nisso. Mas pode ser que a gente não seja, entendem? Nós temos obstáculos, mas a gente vai curando esses obstáculos com metabavana. A gente aspira coisas elevadas para os seres e se perdoa da impossibilidade de harmonia. Nós não temos essa possibilidade, nós vamos andando. Mas todos nós estamos imersos num ambiente verdadeiramente favorável: podemos seguir nosso caminho e seguir nossa prática.

Créditos: Pinheiro Vermelho

 

O lugar que estamos é o lugar da iluminação

Tem uma parte superimportante de ensinamentos que vem antes de shamata. Eu preciso pacificar isso, caso contrário nós podemos estar numa encosta iluminada onde muitos mestres atingiram a iluminação, nós estamos na mesma caverna de um grande mestre que atingiu a iluminação, mas nós estamos preocupados com coisas que a gente deixou para trás. Só que essas coisas não ficaram para trás, elas foram conosco. É nesse sentido que precisamos fazer as práticas preliminares. As práticas preliminares são assim: ninguém atravessa um rio carregando uma carga de algodão. A gente entra e aquele algodão incha, pesa e nós somos arrastados. Nós precisamos libertar essa dimensão cármica. 

O mestre Dogen, fundador do Soto Zen, diz: “Não faça viagens inúteis a outros países”, como ele mesmo fez. Aquilo é um pouco estranho, porque ele foi à China e encontrou o mestre dele, fez treinamento, recebeu a transmissão, foi para o Japão e construiu tudo. Mas ele diz: “Não faça viagens inúteis “. Talvez ele seja a melhor pessoa para dizer isso mesmo, porque ele diz: “O templo onde nós vamos atingir a iluminação, está neste mesmo lugar onde nós estamos”. É onde os pés tocam no chão, esse é o templo onde vamos atingir a iluminação. É assim pessoal, a gente não vai atingir a iluminação em outro lugar. Não há dois lugares, só existe um lugar: o chão onde nós pisamos, este lugar é onde a iluminação está presente. No Zen também tem a saudação do lugar onde nós sentamos. No final de uma prática, a gente arruma a almofada de novo e cumprimenta, porque onde nós estamos, ali é o lugar da iluminação, não é outro. 

Nós não estamos no lugar errado. O lugar onde estamos sentados, esse é o lugar da iluminação, porque esse não é um lugar. É um lugar no nível sutil. No nível sutil nós sempre estamos no mesmo lugar e esse lugar do nível sutil é que precisamos cultivar. É ali que vai acontecer a iluminação. Se nós vamos para outro lugar físico, mas não estamos nesse lugar sutil, isso significa que a etapa preliminar da prática não se completou. 

Toda prática preliminar é a purificação do lugar onde a gente senta. Depois que a gente purifica o lugar onde a gente senta, purifica mais ou menos, a gente consegue fazer a prática de shamata. Se a gente não consegue fazer a prática de shamata é porque o lugar não está purificado o suficiente. Então a gente faz a prática de shamata, a nossa mente ganha essa estabilidade. Se ela ganha essa estabilidade, nós ouvimos sobre visão, nós acessamos. Se a gente ouve sobre visão, ouve sobre shamata e aquilo não funciona é porque faltou a prática preliminar. Estamos com ganchos cármicos em várias direções que desviam nosso foco.

Onde os pés tocam no chão, esse é o templo onde vamos atingir a iluminação. É assim pessoal, a gente não vai atingir a iluminação em outro lugar. Não há dois lugares, só existe um lugar. Onde nós pisamos o chão, este é o lugar onde a iluminação está presente. No Zen tem a saudação do lugar onde nós sentamos. No final de uma prática, a gente arruma a almofada de novo e cumprimenta, porque onde nós estamos, ali é o lugar da iluminação, não é outro. 

As práticas preliminares são a própria vida

Se vocês olharem o que nós estamos fazendo, estamos fazendo um pouco em cada uma dessas coisas. Por exemplo, as práticas preliminares incluem a escola, incluem todas essas etapas do Instituto Caminho do Meio, as etapas no mundo. Nós vamos purificando nossa motivação, refazendo a motivação. Aquilo que a gente faz é importante e ao mesmo tempo não é, porque o nível central disso é que é o ponto. 

Por exemplo, os educadores estão cuidando das crianças e as crianças são os mestres dos educadores. Elas vão fazer balançar todas as emoções, todas as conexões cármicas e todas as aflições vão aparecer. Quando nós estamos no meio do mundo, ajudando na cozinha, ajudando aqui e ali e fazendo diferentes coisas, nós estamos balançados, arrastados com emoções, nós temos projetos e frustrações que vão acontecendo. Quando surgem pessoas que são obstáculos para nós, isso é um mestre diante de nós que nós passamos a olhar, a trabalhar com metabavana, com a prática de Tara.

“Agora, enquanto eu e incontáveis outras pessoas estamos perdidos no oceano de sofrimento samsárico, busco a iluminação para adquirir a felicidade temporária e definitiva para mim e para todos os seres vivos. Por esse motivo, tomo refúgio em Arya Tara, a corporificação do puro estado desperto, indissociável de todas as qualidades perfeitas do Buda, Dharma, Sangha, Lama, Yidam e Dakini”. Essa é nossa prática. A prática geral, o diagnóstico do que nós estamos fazendo. Nós estamos buscando o puro estado desperto. As múltiplas circunstâncias desafiam e purificam essa motivação e assim nós vamos andando.

Importância das experiências em retiros

Eu fico super feliz que nesse tempo a gente pôde estabelecer as várias formas de operar. Desde o Instituto Caminho do Meio que a gente pode chamar de bloco 0, também bloco -1, bloco 1, que são os ambientes que não necessariamente são budistas, mas nesses ambientes os budistas praticam e melhoram muito a sua visão. E a gente desenvolveu as habilidades de bloco 2, ou seja, os vários centros onde a gente senta em roda, estuda textos, aprofunda na linguagem e encontra várias formas de compreender. 

A partir disso, nós também meditamos um pouco, vamos avançando em shamata e desenvolvemos as habilidades que podem nos levar a fazer retiros. Nós vamos ter dois retiros praticamente de silêncio na primeira e segunda metade de janeiro. Isso está sempre disponível, pessoal, nós podemos avançar dentro disso. Nós temos outras áreas de retiro para práticas em grupos pequenos ou individuais, onde vamos testando e focando a mente e avançando dentro disso. 

Nós temos essas 9, 10 áreas de aldeias no país todo. Todos esses lugares têm espaço para a gente sentar em shamata, testar isso, fazer isso em grupo. Em grupo, às vezes, as pessoas acham desafiador, porque quem está no grupo tensiona as outras pessoas. A pessoa pensa: “Esse ambiente é mais ou menos”, porque aquilo produz uma tensão, mas essa tensão faz parte do próprio processo. Será que nós somos capazes de simplesmente abstrair isso e focar nossa prática? Ou a gente fica incomodado pela presença ou pelo pensamento que o outro tem? Por que o outro sempre faz uma coisa que não é bem como eu acho que deveria ser? Por que todo mundo não é igual a mim e faz tudo perfeito, tudo do mesmo jeito? 

A gente se defronta com esses obstáculos. Eu acho muito bom os retiros de silêncio em grupo. Isso é tradicional dentro do Zen. E também os retiros individuais, onde nós estamos mais isolados e geramos a nossa própria rotina. Às vezes, parece que a gente vai perder tempo, mas não. De modo geral, quem entra nesses retiros começa a dormir muito pouco, medita de dia, de tarde, de noite, de madrugada. Vai introduzindo turnos de descanso ao longo do dia e turnos de meditação dia e noite e vai girando assim. A mente vai ultrapassando o dia e a noite e a pessoa vai aprofundando. 

Todas essas experiências são muito importantes. Felizmente, a gente tem esses lugares. E agora, nós também temosa possibilidade de ir estudando o ano inteiro. Na verdade, eu estou com essa aspiração de que a gente amplie isso, que a gente possa ter vários tipos de estudos que já foram feitos, de modo permanente com diferentes facilitadores conduzindo, em diferentes horários. Assim nós temosa possibilidade das pessoas irem estudando constantemente. Eu aspiro que a gente faça isso, sendo que o eixo central é o ensinamento de Garab Dorje: visão, meditação e ação, precedido por shamata, e shamata precedido pelas práticas preliminares. As práticas preliminares, enfim, são um ambiente de ação e fruição. Então, a gente faz toda a volta, a gente começa pela prática preliminar, shamata, visão, meditação, ação, fruição. 

Quando a fruição se estabelece a gente volta para o ambiente da prática preliminar. Volta o contato com a filosofia, com o mundo, com ajuda, ajuda aqui, ajuda ali, e a gente vai olhar tudo aquilo com outro olhar, aquilo tudo fica purificado. Quando aquilo purifica, shamata fica melhor, a visão fica muito mais profunda e ação e fruição ganham uma outra dimensão. A gente circula e chega nisso de novo. A fruição e o mundo onde nós fazemos as práticas preliminares são o mesmo ambiente. No início, nós fazemos um tipo de prática, depois outro tipo de prática, mas o ambiente é o mesmo, que é onde está o nosso mestre, que é o próprio samsara.

Vejam: quem é que o Buda invocou para atingir a iluminação? Ele podia ter dito: “Agora, que desçam todos os Budas do passado”. Mas não, ele disse: “ Mara, vou derrotar você”. Ele lembrou de quem? Mara. E Mara apareceu. Quem é que foi o companheiro incessante dele durante todo o caminho? Mara. Vocês não se preocupem, Mara estará com vocês. Ou seja, os problemas vão acontecer, não tenham dúvida. Esse é o desafio. 

O Buda invoca Mara e Mara aparece. Como ele aparece? “Nós somos amigos, finalmente agora estamos juntos”. Não. Mara oferece um ambiente destruidor, totalmente destruidor. Ou seja, exércitos circulando em volta do Buda, chuva de flechas voando em direção a ele. E o Buda consegue neutralizar todos os obstáculos do samsara, porque ele olha para aquilo e vê que aquilo é o samsara. Então tudo se transforma em flores e perfume. Como a gente é capaz de transformar os obstáculos em flores e perfume? Mara aparece e ele se torna um mestre, porque o Buda faz essa magia: tudo aquilo vira flores e perfume, ou seja, os obstáculos se transformam em auxiliares da própria prática. 

Mas Mara não desiste. Ele vai oferecendo outros níveis de obstáculo e mais níveis de obstáculo. Até que o Buda supera, enfim, os obstáculos todos. E o Buda pergunta: “Como é que isso aconteceu? Como surgiu isso tudo?”. Ele descobre que Mara surge junto com todos esses obstáculos e surge junto com tudo isso através da originação dependente, que é a manifestação da própria mente primordial. Então, ele ilumina tudo em todas as direções. Não sobra nada. Ele descobre Dharmadatu. Ele vê Dharmadhatu não como aquilo que a mente dele vê, mas Dharmadhatu como a experiência da multiplicidade das mentes que são as mentes iluminadas construindo mundos. 

Multiplicidade dos mundos

O mundo não é uma planície. Vocês imaginem assim: múltiplos seres, cada um vendo o seu mundo; a multiplicidade dos mundos construídos pelos múltiplos seres, interagindo com os outros mundos vistos com os outros seres. Como esses mundos se encontram? Eles se encontram assim: você cuida de um cachorro, é o mundo do cachorro, mas aquele mundo se funde um pouco conosco. Do nosso mundo aparece a ração. O cachorro pensa: “Ah, ração. Eu não gosto muito. Mas tudo bem, é o que brota do mundo dos humanos, fazer o quê? Não tem possibilidade de ser melhor que isso. Tudo bem, então eu vou comer ração”. 

Mas o que os humanos não entendem é que nunca, nas gerações anteriores, os cachorros comeram ração. Mas tudo bem, pelo menos é de boa procedência (risos). Nós vamos vendo que esses são os mundos se interligando. Eles não se interligam de fato, mas eles se tocam. Tem as inteligências dos mundos específicos dos seres, que são inteligências luminosas que constroem mundos específicos e tem os mundos interligados. Assim, a nossa inteligência não abarca a inteligência dos outros seres. Os seres geram suas próprias inteligências e seus mundos. E essa multiplicidade de inteligências, isso é a inteligência búdica. 

O Buda penetrou esses múltiplos mundos, ele viu isso. Esse mundo complexo, variado, de múltiplas inteligências que se interligam, isso é Dharmadhatu. Dharmadhatu é a mente iluminada dos múltiplos seres criando esses mundos. Quando nós não entendemos isso como as inteligências luminosas dos múltiplos seres, nós vamos dizer que isso é o samsara. Mas o samsara purificado visto pela mente búdica é Dharmadhatu. O mesmo samsara é Dharmadhatu, não tem separação. 

Não há o mundo degradado, o que há é visão limitada. Sendo que a visão limitada, não é uma visão limitada, ela é uma visão desde um mundo. Quando eu olho tudo a partir de um mundo, eu vejo de um certo modo, quando eu olho a partir de outro mundo, vejo de outro modo. Se eu surjo como uma identidade que só olha a partir de sua própria visão, eu vejo uma única visão. Não é que esteja errado, mas isso é uma visão particular, só isso. Ela também é iluminada, ela também é uma construção artificial. Está tudo perdoado, todos os seres estão perdoados. Tudo bonito, tudo interligado e toda confusão também é uma beleza.

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