Mudra Varada representando as qualidades da primeira paramita: generosidade. Arte de Fabio Martins

Generosidade: a primeira das Seis Perfeições

Para celebrar a chegada de Jetsunma Tenzin Palmo ao Brasil, traduzimos ensinamentos desta grande mestra do Budismo tibetano sobre as seis perfeições publicadas originalmente no Gatsal Teaching

Por
Revisão: Arildo Dias e Valma Ruggiero
Tradução: Cristiane Cruz

Antes da chegada da venerável Jetsunma Tenzin Palmo ao Brasil, de 29 de março a 1 de abril, em São Paulo, já estávamos preparadas para publicar nesta semana uma homenagem sobre a britânica que com menos de 20 anos de idade foi de navio para Índia em busca de seu mestre e passou cerca de 12 anos em retiro solitário numa caverna em Lahul, nos Himalaias indianos.

Mas numa espécie de magia, ao mesmo tempo que começamos a escrever, recebemos gentilmente da praticante brasileira Cristiane Cruz, que está morando na Índia e esteve no convento da Jetsunma, o Dongyu Gatsal Ling Nunnery, a tradução das transcrições das Seis Perfeições (paramitas) oferecidas por Tenzin Palmo.

No budismo tibetano, os bodisatvas trilham o caminho da prática das seis perfeições: generosidade, ética, paciência, esforço entusiasmado, meditação e sabedoria. Essas seis práticas são chamadas perfeições porque são a chave para o surgimento da completa iluminação e permitem atingir um estado livre das emoções perturbadoras e dos obstáculos para alcançar um bem-estar supremo.

Até a chegada de Jetsunma Tenzin Palmo, estaremos publicando a tradução de uma paramita por semana para celebrarmos esta conexão cheia de alegria e amor desta esperada professora espiritual, assim como com todas as monjas da linhagem da Togdenmas (retirantes de longa vida).

Que possamos contemplar com atenção e que muitas pessoas sejam beneficiadas.


Generosidade: a primeira perfeição

Eu acho que o Buda colocou Dana – o que significa doação ou generosidade – bem no início do caminho espiritual porque é algo que todos podemos fazer com mais facilidade do que algumas das outras perfeições.

Por mais deludidos que possamos estar, por mais irritados que possamos estar, por mais ciumentos ou gananciosos que possamos estar, nós ainda assim podemos doar. É uma qualidade muito básica. Não precisamos de altas qualidades espirituais, para aprender como doar.

O ato de ser generoso, significa termos aberto nossas mãos e coração. É uma maneira muito bonita de nos relacionarmos com os outros.

Na Ásia, as pessoas entendem muito bem essa qualidade de oferecer um coração aberto e generoso. Essa compreensão é baseada no entendimento de que se quisermos ser prósperos e bem-sucedidos, não só agora, mas também em vidas futuras, então temos que plantar as sementes.

Não vamos conseguir uma boa colheita se não plantarmos as sementes. As sementes para a prosperidade são a generosidade e a doação. Portanto, se alguém quer ser bem-sucedido e espera que as coisas aconteçam da maneira que queremos que elas aconteçam, é preciso criar as causas e condições para isso.

Assim, considera-se que se tivermos dificuldade em ganhar e acumular algum dinheiro, e sempre terminamos muito pobres, é porque não criamos no passado, causas e condições favoráveis por meio da generosidade e do coração aberto.

O Buda disse uma vez, que se as pessoas entendessem o verdadeiro benefício futuro de doar, então elas não manteriam nenhuma só refeição apenas para si mesmas, mas tentariam compartilhá-la com os demais.

Mas porque não vemos os resultados futuros, nossas mentes ficam pensando: “Se eu der isso para alguém, então o que vou ter”? O que sobrará para mim”?.

Esse tipo de mente, não só corta nossos impulsos generosos, como também cria as causas para não sermos prósperos mais tarde. Nós precisamos considerar mais profundamente essa ideia de compartilhar e estarmos abertos às necessidades dos outros, tanto quanto às nossas.

É uma alegria doar. Beneficia não apenas os que recebem nossas ações, mas a nós mesmos. Inclusive, isso nos beneficia mais do que beneficia o outro, porque é a mentalidade estreita que pensa “isso é meu e não dou a ninguém”, que nos causa muita dor e nos impede, mesmo que possuamos muito, de realmente apreciar o que temos, porque temos medo de compartilhar com os outros de coração aberto.

Pote vazio, coração aberto. Arte de Fabio Martins

Estamos sempre com medo de que as pessoas tentem tirar nossas coisas de nós. Não são as coisas que possuímos que são o problema: É o nosso apego que é o problema. Então, desse modo, as coisas nos possuem ou nós as possuímos? Podemos segurar as coisas levemente, para que quando vejamos alguém, em necessidade ou simplesmente não sendo apreciada, possamos doar com alegria.

Não estou dizendo que vocês deveriam ir para casa e se desfazer de todas as suas coisas – esse não é o ponto. O ponto é abrir o coração, é realmente ser capaz de se alegrar em doar  aos outros, não apenas coisas materiais.

As coisas materiais são boas para começar, mas também podemos doar outras coisas, assim como o nosso tempo, a nossa simpatia, a nossa presença e um coração destemido quando os outros precisam de nós.

Na linguagem budista, existem três tipos de generosidade que vêm à mente. A primeira se refere ao oferecimento de bens materiais. A segunda, é o dom do Darma, que significa estar lá para os outros, ouvi-los, dando-lhes conselhos e apenas tentando ajudar a ampliar um pouco sua visão de mundo.

Mas há também o dom do destemor, de ser uma proteção, de ajudar as pessoas a descobrir sua própria coragem interior. Doar isso a alguém é considerado um presente muito valioso, sem preço. Nós podemos começar de maneira  simples. Podemos começar, simplesmente, desenvolvendo essa qualidade de estar consciente dos outros e de suas necessidades, de oferecer alegria e bem aventurança aos outros.

Nós doamos com uma intenção de doar com alegria. Doamos  para  ajudar, se  necessário. Não doamos apenas no Natal ou em aniversários, ou quando estamos visitando alguém ou o que quer que seja, mas de forma espontânea. Vemos algo que gostamos, e doamos a alguém, talvez até para alguém de quem não gostamos.

É bom ser generoso com as pessoas que gostamos, mas também é bom ser generoso com as pessoas que não gostamos, pois esta é uma bela maneira de nos relacionarmos com os outros.

Esta é a primeira das seis perfeições. É o primeiro passo no caminho espiritual, por isso é muito importante.


Transcrição do original em inglês disponível em Gatsal teaching →

Agradecimento especial ao Lama Jigme Lhawang e à sanga Drukpa Brasil pela colaboração na publicação desse texto.  

Confira também textos com os ensinamentos das outras perfeições já publicados. Ir para a lista → 


9 Comentários

  1. Eden Boscaini Basegio disse:

    Gratidão!!!!

  2. Carla disse:

    Que lindo

  3. Odete Soares da Silva disse:

    Maravilhoso gosto de doar sempre que vejo alguém precisando de mim, Gosto de me colocar a disposição do outro,me sinto muito bem …

  4. monikag disse:

    Isso é generosidade. Então, se diz: quando não há generosidade, isso é a generosidade. Quando a generosidade se estabelece, não há uma generosidade, por isso nós vamos dizer que é a perfeição da generosidade.

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