“Nós vivemos em nossa mente, então, a única maneira de sermos livres é compreender perfeitamente a mente”. Ilustração: Lúcia Brandão

Sabedoria: a sexta das Seis Perfeições

Prajna Paramita, a última publicação da série sobre as Seis Perfeições, por Jetsunma Tenzin Palmo

Por
Revisão: Ieda Estergilda e Carmita Padma Ieshe
Tradução: Cristiane Cruz

Antes da chegada da venerável Jetsunma Tenzin Palmo ao Brasil, de 29 de março a 1 de abril, em São Paulo, já estávamos preparadas para publicar uma homenagem sobre a britânica que com menos de 20 anos de idade foi de navio para Índia em busca de seu mestre e passou cerca de 12 anos em retiro solitário numa caverna em Lahul, nos Himalaias indianos.

Mas numa espécie de magia, ao mesmo tempo que começamos a escrever, recebemos gentilmente da praticante brasileira Cristiane Cruz, que está morando na Índia e esteve no convento da Jetsunma, o Dongyu Gatsal Ling Nunnery, a tradução de ensinamentos transcritos de Tenzin Palmo sobre as Seis Perfeições (ou Seis Paramitas).

No budismo tibetano mahayana, os bodisatvas trilham o caminho da prática das seis perfeições: generosidade, ética, paciência, esforço entusiasmado, meditação e sabedoria. Essas seis práticas permitem atingir um estado livre das emoções perturbadoras e dos obstáculos e, se praticados de forma perfeita, junto com sabedoria genuína, são a chave para o surgimento da completa iluminação.

Até a chegada de Jetsunma Tenzin Palmo, estaremos publicando esta série de ensinamentos sobre as Seis Perfeições, sendo uma perfeição por semana, em uma espécie de contagem regressiva para a chegada desta grande mestra ao Brasil.

Que possamos contemplar suas palavras com atenção e que muitas pessoas sejam beneficiadas.


Em geral, a sabedoria budista trata de ver as coisas como elas realmente são e não como são projetadas através da lente distorcida do nosso ego. Portanto, a prática mais importante do Dharma é ver além das distorções de nossas ideias sobre o eu. Existem duas abordagens básicas na sabedoria budista. Uma delas lida com a chamada realidade dos objetos externos, e a outra abordagem trata da mente que concebe – embora, em última instância, essas duas abordagens estão unidas.

Quando eu comecei a meditar, meu professor era um velho iogue e na minha primeira lição ele apontou para uma mesa e perguntou:

– “Esta mesa é vazia?”
Como uma boa monja, eu já havia lido alguns livros sobre filosofia, então eu disse:
– “Oh, sim, a mesa é vazia!”
O iogue respondeu:
– “Você vê isso como vazio?”
– “Bem… não.”
E ele perguntou:
– “A mente é vazia?”
Então, eu falei com um pouco mais de confiança:
– “Sim”.
E ele perguntou novamente:
– “Você vê a mente como vazia?”
– “Não”.
E ele continuou:
– “O que você acha mais fácil de ver – o vazio da mesa ou o da mente?”
Eu disse:
– “Oh, o vazio da mente.”
E ele disse:
– “Ok, então você pode ficar conosco.”
Naturalmente, eu perguntei:
– “E se eu tivesse dito a mesa?”
Aí, iogue riu e respondeu:
“Oh, então eu teria mandado você para o Monastério de Sera na estrada!”

Duas abordagens para a questão da vacuidade

Uma é a abordagem erudita em que os fenômenos são analisados intelectualmente através do estudo de Madhyamika, onde a ênfase é colocada principalmente sobre a vacuidade dos fenômenos externos. E é claro que também é preciso meditar sobre isso. Porém, a tradição iogue olha para a própria mente que analisa, porque é a mente que projeta nosso senso de solidez nos fenômenos externos.

A física moderna nos mostra que, de fato, esta mesa é vazia e que efetivamente, tudo é reduzido a prótons e nêutrons – que são, basicamente, espaço e energia. Então, nós nunca podemos encontrar a coisa em si mesma. Filosoficamente, isso é abordado dizendo que nada existe por si mesmo e que tudo existe mediante causas e condições.

Porque tendemos a dar solidez e a reificar tudo, essa análise pode mostrar que por mais que se reduza e reduza um objeto, não há nada que possa ser apontado como a coisa em si. A existência inerente é apenas um rótulo conceitual conveniente. Assim, o fato de que nada existe por si mesmo, de que qualquer coisa carece de existência inerente e depende de uma combinação de causas e condições, na linguagem budista é chamado de “vacuidade”.

Na meditação budista estamos tentando voltar para a nossa natureza original, também chamada natureza de Buda, natureza da mente, Dharmakaya e assim por diante. Mas estes são apenas nomes. Uma vez, vi um documentário sobre meditação no qual um padre ortodoxo russo disse que a primeira coisa que lhe foi ensinada como novato era que qualquer coisa que ele pudesse pensar sobre Deus – Ele não é isso!

Em outras palavras, a realidade última é realmente última e está além da nossa mente conceitual. A nossa mente pensante ordinária é, por sua própria natureza, dualista. Isso significa que a mente conceitual pensa “eu” e automaticamente “outros” (que não sou eu). Naturalmente pensa em termos do que é bom-mau, alto-baixo, grande-pequeno.

Esta é a natureza e o próprio funcionamento da nossa mente conceitual dualista. Ela também pensa em termos de tempo. A mente conceitual dualista está presa no passado e no futuro. É muito difícil para ela permanecer no presente. Nós geralmente nem estamos conscientes disso porque estamos tão ocupados pensando, que permanecer no momento presente sem vaguear é muito difícil para a mente.

Assim, normalmente, somos governados por essa mente conceitual que solidifica em nossa percepção algo que chamamos de “um eu”. E acreditamos neste eu. É quem nós somos. Fazemos tudo o que podemos para acalmar esse eu – para fazê-lo feliz e tentar evitar qualquer sofrimento. No entanto, o próprio ego não está preocupado com a felicidade ou o sofrimento. O ego, de fato, fica feliz por ser miserável porque isso ainda o faz parecer algo realmente existente.

Observamos que as pessoas muito infelizes são totalmente centradas em si mesmas e em seus sofrimentos. As pessoas com alguma perturbação psicológica são normalmente focadas em si mesmas. Talvez esta seja uma razão porque os psiquiatras e os terapeutas prosperam, pois eles são pagos para sentar e ouvir enquanto os pacientes falam, sem parar, de si mesmos e de suas infâncias miseráveis.

A meditação do insight trata de olhar diretamente para esse senso de “eu” aninhado no centro de nossos pensamentos, perguntando “quem sou eu?” Uma vez que a mente se acalmou através da meditação shamatha, os pensamentos agora se movem mais devagar e nossa atenção está mais unifocada. Então, fazemos esta luz da atenção unifocada voltar-se para si mesma e olhamos o fluxo de pensamentos, porque tudo o que podemos conhecer se dá através da mente; mas a mente em si nós não conhecemos, nunca olhamos para ela e nunca questionamos sobre ela.

Perfeição da Sabedoria

Ilustração: Lúcia Brandão

É como alguém sentado nas margens do rio apenas observando o fluxo da água. Normalmente nós estamos no rio sendo carregados pela correnteza. Onde o fluxo de pensamentos vai, lá vamos nós. Mas agora estamos quietos, apenas observando. Então, nós apenas sentamos lá, relaxados, olhando sem julgamento ou preferência.

Em seguida, podemos começar a analisar a mente. É como se tivéssemos com um grande ponto de interrogação em nossa mente. O que é um pensamento? O que é uma emoção? De onde ela vem? Para onde vai? Qual é a sensação? Que aparência tem uma emoção? Quem está pensando? Há momentos em que a mente está muito ocupada com muitos pensamentos e há outros momentos em que a mente está quieta, sem pensamentos. É igual ou diferente? E a consciência que observa os pensamentos é igual aos pensamentos ou é diferente?

Então, passamos a investigar a mente. Podemos também gerar um sentimento forte lembrando um momento em que nos sentimos raivosos e depois tentar recriar em nós mesmos a sensação da frustração e da raiva que sentimos. Então, olhamos para isso. Qual é esse sentimento? Como é? De onde veio? O que é isso? Para onde foi? Não basta pensar, precisamos realmente olhar com essa consciência questionadora.

Nós vivemos em nossa mente, então, a única maneira de sermos livres é compreender perfeitamente a mente. Isto é realizado não através do intelecto, mas através da experiência direta. A meditação não é algo apenas passivo, agradável e pacífico.
O corpo pode estar imóvel, mas a mente está pela primeira vez acordando e usando toda sua energia para realmente olhar para si mesma. Temos que realizar a natureza vazia desses pensamentos e sentimentos. Não basta apenas dizer: “Ah, sim, os pensamentos são vazios”. Enquanto não experimentarmos que eles são vazios, eles não serão vazios para nós.

À medida que os pensamentos diminuem e a nossa consciência se torna mais profunda e clara, aparece, às vezes, um intervalo entre o pensamento anterior e o pensamento seguinte. Antes deles serem ligados entre si, há uma abertura momentânea. Uma vez que nossa consciência está unifocada, naquele momento, podemos perceber a natureza da mente. Mas geralmente, pensamos: “Ah, sim, sim!” E, portanto, estamos pensando novamente.

Imagine que estamos em um cinema e na tela há um filme sendo exibido. O filme que estamos assistindo é cheio de movimento, som, luz e estamos totalmente absorvidos nele. (De fato, nós estamos assistindo e “estrelando” ao mesmo tempo). Se for um bom filme, estamos completamente envolvidos. Se for triste, estamos chorando, se for uma comédia, estamos rindo, se for um filme de ação, nossos corações estão batendo forte.

Se for um filme bem feito, enquanto assistimos estaremos imersos e encantados. Mas se olharmos atrás da tela, o que realmente está acontecendo é que há um projetor onde quadros/fotos individuais transparentes estão se movendo muito, muito rápido. O projetor emite luz através desses quadros/dessas fotos em movimento rápido e todo o drama é projetado na nossa frente.

Sem dúvida, esta analogia tem algumas semelhanças com o que está acontecendo em nossas mentes. Fundamentalmente, há o que é chamado clara luz ou natureza da mente. A natureza da mente é naturalmente a consciência primordial não nascida, pura. O fato de que você pode ler esta página é porque você está ciente, porque você está consciente. Mas em geral não estamos conscientes de estar conscientes, porque estamos muito ocupados, absorvidos nos pensamentos.

Este espetáculo sem fim está sendo exibido em nossa mente – estados mentais mostrados momento a momento – e é projetado diante de nós como nossa realidade externa. Enquanto estivermos fascinados com o filme a nossa frente, nós acreditaremos e estaremos profundamente envolvidos no que parece estar acontecendo.

Mas se olharmos para trás e percebermos que se trata apenas de um espetáculo mental projetado por nós/que estamos projetando, embora ainda possamos apreciá-lo, não ficaremos totalmente desolados se for uma tragédia, ou completamente envolvidos se for um romance. Sabemos que é apenas um filme.


Transcrição do original em inglês disponível em Gatsal teaching →

Agradecimento especial ao Lama Jigme Lhawang e à sanga Drukpa Brasil pela colaboração na publicação desse texto.  

Confira também os outros ensinamentos sobre as Seis Perfeições


 

1 Comentário

  1. Ormando disse:

    “Talvez esta seja uma razão porque os psiquiatras e os terapeutas prosperam, pois eles são pagos para sentar e ouvir enquanto os pacientes falam, sem parar, de si mesmos e de suas infâncias miseráveis.”

    rsrs ^^

    Ótimo texto, Jetsunma preciosa ^^

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