Para cultivar paciência é preciso que haja algo que nos exaspere! Arte: Diego Navarro

Paciência: a terceira das Seis Perfeições

Mais um dos ensinamentos de Jetsunma Tenzin Palmo sobre as Seis Perfeições, publicadas originalmente no Gatsal Teaching


Por
Revisão: Paulo Zorzetto e Cláudia Laux
Tradução: Cristiane Cruz

Antes da chegada da venerável Jetsunma Tenzin Palmo ao Brasil, de 29 de março a 1 de abril, em São Paulo, já estávamos preparadas para publicar nesta semana uma homenagem sobre a britânica que com menos de 20 anos de idade foi de navio para Índia em busca de seu mestre e passou cerca de 12 anos em retiro solitário numa caverna em Lahul, nos Himalaias indianos. Antes da chegada da venerável Jetsunma Tenzin Palmo ao Brasil, de 29 de março a 1 de abril, em São Paulo, já estávamos preparadas para publicar nesta semana uma homenagem sobre a britânica que com menos de 20 anos de idade foi de navio para Índia em busca de seu mestre e passou cerca de 12 anos em retiro solitário numa caverna em Lahul, nos Himalaias indianos.

Mas numa espécie de magia, ao mesmo tempo que começamos a escrever, recebemos gentilmente da praticante brasileira Cristiane Cruz, que está morando na Índia e esteve no convento da Jetsunma, o Dongyu Gatsal Ling Nunnery, a tradução de ensinamentos transcritos de Tenzin Palmo sobre as Seis Perfeições (ou Seis Paramitas). No budismo tibetano mahayana, os bodisatvas trilham o caminho da prática das seis perfeições: generosidadeética, paciência, esforço entusiasmadomeditação e sabedoria. Essas seis práticas permitem atingir um estado livre das emoções perturbadoras e dos obstáculos e, se praticados de forma perfeita, junto com sabedoria genuína, são a chave para o surgimento da completa iluminação.

Até a chegada de Jetsunma Tenzin Palmo, estaremos publicando esta série de ensinamentos sobre as Seis Perfeições, sendo uma perfeição por semana, em uma espécie de contagem regressiva para a chegada desta grande mestra ao Brasil. 

Que possamos contemplar suas palavras com atenção e que muitas pessoas sejam beneficiadas.


A terceira Perfeição é conhecida em sânscrito como kshanti e em português como paciência ou tolerância. Como este é um dos fatores necessários para alcançar a iluminação, a questão da paciência é muito importante para trazer o Darma a nossas vidas diárias.

No entanto, para cultivar paciência é preciso que haja algo que nos exaspere! Se estamos cercados por pessoas gentis e amorosas que fazem e dizem o que queremos que façam e digam, é muito bom. Mas não aprendemos nada. De fato, porque é fácil ser amoroso diante de pessoas adoráveis, também seria fácil pensar que somos muito mais agradáveis do que realmente somos.

Então precisamos em nossas vidas de pessoas que criem problemas, nos irritem e nos perturbem, porque assim nos desafiam a aprender a ser pacientes. Shantideva aconselha que, em vez de olharmos para alguém que nos perturba, maltrata ou causa problemas como um inimigo, devemos perceber que este é o nosso verdadeiro amigo espiritual, porque esta é a pessoa que pode nos ensinar sobre paciência.  

Ele dá o famoso exemplo da Terra coberta por pedras afiadas e cardos e diz que andando sobre ela, sempre machucaríamos nossos pés. O que fazer então? Cobrir a terra inteira com um tapete de couro? Em vez disso, pegamos um pedaço de couro e o usamos sob as solas dos nossos pés, como sandálias e sapatos. Assim podemos caminhar em qualquer lugar sem nos machucar.

Da mesma maneira, não podemos esperar que o mundo inteiro seja exatamente como queremos, porém podemos alterar nossa própria atitude. A boa notícia é que podemos mudar: nossos personagens não são moldados em pedra. Podemos mudar, mas ninguém mais pode nos mudar; temos que nos mudar nós mesmos.

Então, o ponto é que estamos aqui no samsara – que por  natureza é difícil e insatisfatório – e estamos aqui para aprender.  Não estamos aqui apenas para passar um tempo agradável no qual qualquer um que se oponha a nós e ao nosso prazer será considerado uma pessoa ruim. Ou então para pensarmos que somos maus porque nos irritamos e nos chateamos, e nos zangamos com nós mesmos. Isso não ajuda em nada.

Esta vida presente é o que temos, é nosso material de trabalho. É como a argila a que temos que dar forma, e o que criamos dependerá de nós. Durante nossas vidas temos a oportunidade de nos desenvolver. Não devemos ser complacentes, pensando: “É assim que sou e não mudarei nunca!

O mundo humano é considerado muito especial porque não temos todos os sofrimentos implacáveis dos reinos inferiores nem os prazeres incessantes dos mundos celestiais. Aqui, no universo humano, temos equilíbrio entre dificuldades e prazeres.

Então esta é a região que melhor nos possibilita progredir no caminho espiritual. E, muitas vezes, as dificuldades e os problemas que surgem em nossa vida são a oportunidade de nos desenvolvermos e crescer. Portanto, essa vida é chamada de academia da alma.

Entramos numa academia para desenvolver músculos fortes e manter nossos corpos em boa forma; ali há máquinas projetadas para desafiar nossos músculos. Elas devem ser desafiadoras. Trabalhando com estes equipamentos nossos músculos fracos e flácidos se tornam fortes. Em nossa vida quando as coisas estão difíceis de lidar, devido aos problemas – tanto internos quanto externos – podemos considerar que se trata de nossa academia espiritual, na qual trabalhamos e nos exercitamos.

Portanto, quaisquer que sejam nossos problemas internos e externos, se dissermos que são “dificuldades e obstáculos”, serão dificuldades e obstáculos. Mas se dissermos que são “desafios e oportunidades”, eles se tornam desafios e oportunidades.

Então, o que fazemos com a raiva? A primeira coisa a lembrar é que nossas irritações e chateações podem servir para desenvolvermos paciência e compreensão. Porém em certas situações, a maioria de nós se irrita ou se chateia; além do mais, certas pessoas nos irritam naturalmente e provocam nossa raiva. Podemos nesse caso nos concentrar em alguém que represente um problema particular, e usar essa pessoa como meio para transformar a situação, ou simplesmente mudar nossa atitude.

Em outras palavras, em vez de pensar: “Esta pessoa é um problema e uma dificuldade“, podemos pensar nela como um grande amigo espiritual e professor de paciência! Se pudermos fazer isso, então imediatamente toda a dinâmica da relação muda.

Claro que, se alguém estiver em uma situação abusiva, sendo enganado ou prejudicado psicológica ou fisicamente, não permitiremos que isso aconteça. Nessas circunstâncias não é preciso ser vítima; pode-se superar isso e, com compaixão, livrar-se firmemente de tal situação.

Por mais negativo e difícil que alguém pareça ser, lembremos que seu comportamento depende de causas e condições precedentes, muitas das quais fora de seu controle. Observemos que mesmo a pessoa mais terrível tem qualidades, e todos somos inerentemente puros em sabedoria e compaixão inatas. Apenas nos tornamos um tanto obscurecidos ao longo do caminho.

Mas, para muitos, a verdadeira causa da raiva e irritação não é algo externo; ela se encontra em nossa relação conosco. Embora se mostrem irritados e apreensivos com os outros, a verdadeira causa é sua irritação consigo mesmos. É assim importante, antes de mais nada, que façamos amizade conosco.

O budismo tibetano fala muito sobre a mente autoapreciadora e sobre como devemos destruir a atitude de autoimportância. Há muitos textos que nos instruem como nos tornarmos mais humildes nas relações, ao mesmo tempo em que elevamos os outros. Indicam também como, em todos os aspectos, devemos pensar em nós mesmos como ninguém, e nos outros como sendo mais importantes.

Este ensinamento funciona muito bem para pessoas com um grande senso de importância, egoístas e que se acham maravilhosos. Para essas pessoas arrogantes e que se dotam de importância em um sentido negativo, colocar os outros em primeiro lugar é muito benéfico.

Mas para as pessoas que já têm um senso de autoapreciação muito baixo, não gostam de si, se criticam e minam suas próprias qualidades, este ensinamento pode ser perigoso se incompreendido, porque se já se está frágil e machucado, flagelar-se e bater em si mesmo não cura. É preciso nesse caso voltar aos ensinamentos muito básicos do Buda.

No Sutra sobre bondade amorosa, o Buda nos ensina uma meditação a dirigir para aqueles que amamos, para aqueles diante de quem nos sentimos indiferentes e, finalmente, para aqueles por quem sentimos antipatia. Mas, em primeiro lugar, enviamos bondade amorosa para nós mesmos e desejamos nos ver felizes e livres de sofrimento, porque se não estivermos em paz conosco, nem amigos de nós mesmos, não poderemos nos sentir profundamente em paz e ser amigos dos outros.

É assim muito importante lidarmos primeiro com nossa mente e coração, com as negatividades em nossa mente. Todos temos negatividades, todos temos falhas. Se não as tivéssemos, já seríamos um Buda e não precisaríamos do Darma. Precisamos porque temos falhas e problemas que precisam ser tratados e resolvidos. Como parte de nossa prática, precisamos reconhecer e ver claramente pontos fracos e negatividades e reconhecê-los.

Mas em vez de nos enraivecermos conosco, nos sentirmos culpados e chateados, desenvolveremos paciência. Aceitamos que temos essas falhas, o que não significa tolerá-las, nem pensarmos: “Ok, sou uma pessoa irritada, tudo bem.” Isso significa pensarmos: “Ah, sou uma pessoa irritada, é isso que tenho que trabalhar com empenho“. Desta forma, nossos maiores obstáculos se tornam nossas maiores oportunidades.

Ao mesmo tempo, devemos também reconhecer o que temos de bom, porque todos temos qualidades positivas e negativas. Se pensarmos apenas nos aspectos negativos, no que está errado e não consideramos o que é bom, nos tornamos desequilibrados e deprimimos. Se sempre falamos conosco mentalmente, devemos prestar atenção nesta voz.

Qual é essa voz que nos diz sobre nós o tempo todo? Se estamos sempre a rebaixar-nos, dizendo-nos que somos estúpidos, fracassados, que nunca poderemos ter sucesso, que ninguém gosta de nós, que somos horríveis e totalmente inúteis – não é de se admirar que nos sintamos desanimados e deprimidos! Mas o que achamos de um companheiro que nos critica sem parar e aponta nossas falhas sem nunca dizer nada de bom? Pensaríamos que se trata de um amigo?

Portanto é muito importante que, juntamente com a remoção das ervas daninhas de nossas falhas, também cultivemos as flores de nossas boas qualidades. Devemos apreciar tudo o que é bom em nós e estimular que floresça. Se esquecemos e negligenciamos nossa própria bondade, e só pensamos nos aspectos negativos, isso limita nossos esforços espirituais.

É importante perceber que a bondade em nós é um reflexo da nossa verdadeira natureza. Nossos aspectos negativos são como nuvens passageiras, não nossa verdadeira natureza. Portanto, não devemos focar apenas no que está errado. Temos que nos incentivar com o que está no caminho certo.

O ego não morre sendo espancado, subjugado ou ao pensar sem parar: “Sou um pecador fraco e mau“. Flagelar-nos não funciona. O ego fica acuado e ressentido, mas não morre. Se bater em um cachorro, ele ficará com muito medo mas continuará bravo. Se queremos um cão bem treinado ou uma mente bem treinada, temos que ser gentis e encorajar a confiança nas próprias capacidades.

A tradução tibetana para a palavra bodisatva, que significa basicamente “ser iluminado” é changchub sempah. Agora, pahwo significa algo heróico. Então, é como se você se tornasse um herói espiritual. Temos que ser muito corajosos no caminho do bodisatva. Isso significa alguém muito corajoso.

Shantideva diz que há uma grande diferença entre orgulho e arrogância – o que, claro, é negativo – e a autoconfiança, que é essencial no caminho. Na primeira vez que encontrei o 16º Karmapa, quando tinha 22 ou 23 anos, depois de um tempo muito curto ele me disse: “Seu principal problema é que você não acredita em você mesma. Se não acreditar em si mesma, quem acreditará?” E este é o problema de muitos de nós, não confiarmos em nós mesmos.

Não acreditamos em nosso potencial de mudança, nossa capacidade de nos desenvolvermos e assim nos corroemos sem parar, porque não confiamos na natureza essencial de Buda. Aí há a sensação de baixa autoapreciação e raiva em relação a nós mesmos, porque não somos como gostaríamos de ser, e ao ter tal imagem, vemos o que somos. A discrepância nos irrita profundamente.

É por isso que é tão importante perceber que nossos maiores obstáculos são nossas maiores oportunidades. Não há desculpa para nós, temos que trabalhar. Se formos a uma academia, um personal trainer verá quais são nossos pontos fracos e é sobre isso que começaremos a trabalhar. Se nossos braços estão fortes, mas nossas pernas estão fracas, ele nos orientará a treinar nossas pernas. Teremos assim pernas muito fortes!

No aeroporto J.F. Kennedy, em Nova York, havia uma placa com uma citação de Benjamin Franklin: “A melhor maneira de superar seus inimigos é torná-los seus amigos”. Muitos americanos devem ter lido isso, incluindo políticos. E ainda é tão verdadeiro! Se dissermos inimigo, é um inimigo. Se dissermos amigo espiritual, é um amigo espiritual.

Perfeição da paciência

“Surfando as ondas da vida, seja consciente, seja feliz”. Arte: Diego Navarro

Isso também diz respeito a desenvolver a paciência em circunstâncias difíceis que ocorrem e que são oportunidades de aprender algo. Porque isso é samsara, e o samsara é como um oceano, com ondas, e as ondas sobem e descem. Não devemos nos surpreender quando às vezes as coisas estão bem e às vezes estão difíceis. Precisamos é de certo nível de equanimidade em relação às dificuldades e aos bons tempos. Precisamos cultivar essa sensação de imparcialidade e coragem, para poder lidar com tudo o que nos aconteça.  

Vi uma vez uma camiseta na Malásia com um desenho de grandes ondas; em cujo topo havia uma prancha de surfe com uma figura sentada em meditação. O slogan dizia: “Surfando as ondas da vida, seja consciente, seja feliz”. Como eu disse, não estamos neste mundo apenas para nos divertir. Estamos aqui para desenvolver e reconhecer a nossa verdadeira natureza. Isso exige paciência e esforço.


Transcrição do original em inglês disponível em Gatsal teaching →

Agradecimento especial ao Lama Jigme Lhawang e à sanga Drukpa Brasil pela colaboração na publicação desse texto.  

Confira também as outras publicações dos ensinamentos sobre as Seis Perfeições 


Apoiadores

4 Comentários

  1. Sandra disse:

    Que ensinamento precioso!

  2. […] mahayana, os bodisatvas trilham o caminho da prática das seis perfeições: generosidade, ética, paciência, esforço entusiasmado, meditação e sabedoria. Essas seis práticas permitem atingir um estado […]

  3. […] os bodisatvas trilham o caminho da prática das seis perfeições: generosidade, ética, paciência, esforço entusiasmado, meditação e sabedoria. Essas seis práticas permitem atingir um estado […]

  4. Iêda dos Reis Rocha disse:

    Esse caminho para auto iluminação, é o mesmo que Jesus nos convocou. “Conhecereis a verdade e a verdade te libertará. “Amarás a teu Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”. No estágio de humanos precisamos traçar metas para percorrermos essa trajetória de crescimento espiritual, Buda então nos convoca a exercitar as seis perfeições.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *