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A Doença Mental na Perspectiva Budista | Parte 1

por 20/08/2012 23 comentários

Palestra do Lama Padma Samten sobre as doenças mentais e perturbações. Parte 1.

Leia a  parte 2
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Leia a parte 3.
Leia a parte 4.
Leia a parte 5

Eu poderia falar sobre doença mental sob o ponto de vista do terapeuta ou do paciente. Aqui eu vou escolher falar como se estivesse falando com o paciente. O primeiro aspecto que eu falaria, usando uma linguagem nordestina, seria: “Não se aperreie, bichinho”! As coisas são construídas e elas afligem, mas não têm a solidez que parece que elas têm.

Quando nós estamos em meio a uma crise, as crises são sempre alguma coisa parecida com um rato preso em algum lugar e que não está encontrando saída. A nossa mente gira acelerada porque nós estamos buscando saída e aquilo naturalmente já é a perturbação. Enquanto nós estamos focados intensamente buscando uma saída, a gente passa por cima dos outros, não vê os outros, tem um comportamento estranho. Uma das características das nossas crises é a gente não ver os outros. Ou seja, a gente está focado em alguma coisa muito específica e no caso da crise nós não estamos tendo vitória nenhuma, nós estamos nos sentindo ameaçados. Esta sensação de ameaça, com a sensação de que não encontramos saída, e nós vasculhamos intensamente as saídas, é a característica de uma crise.

Então é natural que a pessoa tenha uma mente que fique com a aparência de desorganizada. A pessoa pode ter pequenos acidentes, pode ter acidentes maiores, pode ter muitas confusões. Tem pessoas que se acidentam feio, morrem no meio disso. Vamos encontrar muitos exemplos de gente que pegou um carro, acelerou demais, não viu isso, não viu aquilo. Não viu por que? Porque não está vendo. A pessoa está vendo apenas uma certa característica do seu problema e está esquecendo todo o resto. A pessoa atravessa por cima dos outros, ela comete violências, atrocidades.

Eu lembro de uma praticante do Zen que era muito jovem e eu tinha essa conexão com ela. Ela estava num hospital psiquiátrico – adolescente, pouco mais do que uma adolescente. Quando eu cheguei no hospital ela estava contida, estava amarrada. Por que? Porque ela tinha agredido uma enfermeira. Quando eu conversei com ela, ela disse: “Eu estava rodeada de seres ameaçadores. Aí eu peguei o crucifixo de um colega de sofrimento e botei na minha frente pra me proteger. Aí veio a enfermeira pra tirar o crucifixo”. Ela tinha se sentido diretamente atingida por alguém que tinha chegado muito perto e ia roubar a única segurança que ela tinha. Ela deu uma dentada, talvez merecida. Então ela não estava louca, ela estava operando segundo um critério.

Então vocês vão ver, as pessoas fazem coisas tresloucadas, mas elas estão operando dentro de um critério. A característica essencial deste critério é assim: ela está jogando um jogo e está perdendo. Ela não pode perder, a perda é uma coisa completamente insuportável, é alguma coisa impossível de ser vivida. Aquilo é maior do que qualquer outra coisa. Então a pessoa mata, ela apronta, mas não que ela seja uma assassina que ela seja alguém muito mau. Não é isso. No meio das suas perturbações, a pessoa está jogando um jogo e é aquilo. Esse é o mecanismo geral.

Quando nós estamos muito aflitos, a mente não consegue nem escutar o que estou dizendo aqui, é porque a gente não quer ouvir nada. Nós queremos é sair, nós estamos num lugar muito quente, ou muito frio, ou muito cortante, ou sem ar, sem água, nós estamos muito, muito mal. Por isso, a gente não consegue ouvir, a nossa mente gira o tempo todo, não é nada mais do que isso. Todas as sequelas – do tipo, a pessoa treme, sacode, faz qualquer outra coisa assim -, vários sintomas, a pessoa parada, tensa. Ou, por exemplo, quando o rato desiste, ele entra em depressão, fica parado no mesmo lugar. Ou o rato fica psicótico. Ele fica assim e quando aparece alguém ele vai lá, dá uma mordida e volta, fica parado. E não há o que fazer. Todos eles estão completamente apavorados dentro das circunstâncias que estão vivendo. Isso é especialmente o reino dos infernos. A pessoa entrou no reino dos infernos, ou no reino dos seres famintos. Eventualmente no reino dos animais, mas os animais é uma coisa menos grave, ninguém vai se sentir louco por estar ali. A pessoa vai se sentir sem energia, sem criatividade, sem interesse pela vida, sem rumo. Mas ela não está se sentindo louca, não está se sentindo em crise realmente, ela está passando por um período, algo que um psicólogo resolveria, ou um amigo.

Eu queria explicar pra vocês isso neste sentido geral, porque é isso que está acontecendo, nós estamos com algum tipo de manifestação deste quilate. Mas na visão budista a situação é um pouco mais grave. Nós temos a roda da vida, dentro dela nós temos loucuras em que está todo mundo sorrindo, tem as loucuras em que nós estamos caindo, estamos na parte de baixo, sofrendo, as loucuras onde nós estamos achando que estamos melhorando tudo. Cada ponto nesse ciclo é uma loucura específica. A maior parte dessas loucuras são assintomáticas, ou seja, socialmente elas são consideradas corretas.

Quando nós estamos no meio de uma guerra, as pessoas estão armadas e estão se matando. Mas aquilo, dentro daquele jogo, parece que é aceitável, é uma coisa normal. Não é uma coisa enlouquecida. Nós estamos entendendo o que está se dando ali dentro. No entanto, ainda que não pareça uma loucura, na visão budista isso é uma loucura. Por que? Porque nós estamos esquecendo os outros, estamos com a mente girando, fazendo coisas que mais adiante nós vamos achar horríveis, criando confusão pro futuro, inevitavelmente, e a gente segue com essas características que são de uma loucura.

Às vezes as pessoas estão num momento muito bom. Os momentos muito bons são muito perigosos porque eles são a parte da roda da vida em que nós aceitamos tudo como se fosse uma dádiva, como se fosse tudo favorável. E aquelas coisas favoráveis de hoje se transformam em problemas mais adiante. Todo mundo que compra um carro termina vendendo. As pessoas casam, depois elas descasam. Elas não se descasariam se não tivessem casado. Então quando a pessoa faz alguma coisa, ela já pensa: tem a região de descarte depois. Quando a gente se engaja em alguma coisa, inevitavelmente vai ter a outra parte mais adiante.

Mesmo no caminho espiritual nós temos isso. Aqui eu estou fazendo uma pequena introdução ao tema, não estou entrando no assunto, estou só descrevendo. Quando nós entramos no caminho espiritual dividindo bem e mal e nos filiando claramente ao bem, nós estamos dando nascimento ao mal e nós não vamos saber como lidar com esse mal, depois, especialmente quando nós tivermos sucesso em definir o que é o bem e nos filiarmos completamente. Nós não percebemos que, enquanto nós escolhemos o bem, nós damos nascimento ao mal. Nós damos nascimento mental, nós criamos os infernos, literalmente.
Na visão budista, fora da lucidez não há salvação. Esse é o ponto. E lucidez tem um sentido profundo: significa compreensão da vacuidade. Compreensão da vacuidade intelectual, emocional, compreensão das paisagens como vacuidade, compreensão das mandalas. É necessário isso. Fora disso, não há lucidez. E não havendo lucidez, mesmo que a gente esteja dentro de um caminho espiritual, a gente pode vir a enfrentar situações bem difíceis, é inevitável.

Durante um longo tempo, no caminho espiritual, eventualmente nós criamos também identidades. Na medida que nós criamos essas identidades, elas andam bem, mas inevitavelmente construímos os infernos também. Porque essas identidades são artificiais. Na medida que se estabilizam, mais adiante, ou naquele mesmo modelo de estabilização daquelas identidades, nós temos os infernos construídos, que são as regiões de dissolução da identidade artificial e construída. Nós vamos fugir da destruição disso, nós vamos defender isso como quem defende qualquer coisa no meio do samsara e é inevitável que mais adiante nós vamos ter perdas desses panoramas todos, dessas visões todas, aí nós temos crises correspondentes. Podemos ter tremores, podemos ter várias coisas, a partir da dissolução da própria ilusão que nós vamos construindo por dentro do caminho espiritual. A coisa é complicada, quem quiser avançar um pouco nisso leia, por exemplo, Transcendendo a Loucura (Transcending Madness) e Além do Materialismo Espiritual, de Trungpa Rimpoche, que trabalha bem dentro disso. Estes são temas de grande importância quando se aplicam ao caminho espiritual.

Este texto que se chama Transcendendo a Loucura é muito duro. Quem gosta de ouvir coisa irada, por favor, não perca a oportunidade. Nós vamos sentir que a nossa prática é nada, porque a maior parte de nós está fazendo prática como alguém que está cursando a universidade, buscando algum título, algum reconhecimento, alguma capacitação. Na verdade, nós não deveríamos estar fazendo isso, porque assim nós estamos construindo identidades. Nós deveríamos avançar no caminho da lucidez e não no caminho da qualificação. Nós não estamos construindo uma identidade espiritual que vai atingir a iluminação, o que seria o doutoramento. Nós não estamos fazendo isso. Quando atingirmos esse doutoramento nós vamos ver que a identidade mesmo vai ser ultrapassada. Vamos operar de um outro modo. É uma perda nós tomarmos esse tempo todo como um caminho de construção de alguma coisa. Mas é a linguagem que nós temos, no mundo onde nós estamos, estamos construindo coisas, então nós vamos usar no budismo durante um tempo essa linguagem: “É melhor você fazer isso, você vai ser mais feliz, tenta construir uma coisa melhor, desse modo e não daquele”. Isso é o que é chamado ensinamento provisório. O budismo está cheio de ensinamentos provisórios. Depois ele vai colocar uma vírgula e vai em direção a outras coisas. Estou aqui só tentando estabelecer uma conexão com o tema para que a gente possa agora olhar de uma forma um pouquinho mais teórica isso tudo. Como o tempo é limitado, não posso me alongar demais.

O ponto central que eu queria explicar pra vocês é assim. A gente toma o centro da roda da vida como ponto crucial de reflexão. A gente toma a roda da vida como um todo como um panorama mais amplo que vai se desenhar a partir desse ponto central. Se nós quisermos falar em saúde, saúde mental, doença, doença mental, o nosso foco é a roda da vida, é o diagrama da roda da vida, é o mapa mental da roda da vida. Vocês olhem aquilo como um mapa mental, não como um ensinamento. Olhem aquilo como alguma coisa que vocês vão entendendo aos poucos e vão amadurecendo e vão transformando, olhando de forma mais ampla aquele conteúdo.

O ponto central da roda da vida são os três animais: o javali, o galo e a cobra. Quando olhados desse modo, numa forma muito simples, são três qualidades ou três venenos da mente. O javali corresponde à ignorância, o galo corresponde à avareza e a cobra corresponde à raiva. Na visão budista, todos nós temos esse desequilíbrio original. Todo mundo nasce com javali, galo e cobra. Dito assim, eu precisaria recuar um pouquinho. Porque eu digo: nós nascemos deste modo. Mas nós nascemos deste modo dentro da roda da vida. Eu precisaria explicar que a roda da vida é um software, não é hardware. É uma forma de ver a vida. A nossa natureza não está presa à roda da vida e nem condicionada a ter que operar desse modo. Mas se nós vamos entrar na roda da vida, nós entramos através dos três animais.

Leia a segunda parte.

Transcrição: Carmen Padma Zamora Jimpa

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23 comentários »

  • Lucya disse:

    Trabalho herculeo, mas o UNICO que vale a pena na atualidade… Namaste

  • marcelo b disse:

    Pq então essas doenças são tratadas c/ remedios pesados, e tem resultados?!

  • Julia disse:

    “A maior parte dessas loucuras são assintomáticas, ou seja, socialmente elas são consideradas corretas.”

    Esse é exatamente o efeito do remédio, silenciar e tornar socialmente aceito.

  • Leonardo disse:

    Espero pela segunda parte do texto. E por mais sugestões de como “fazer emergir a mente” do que críticas.

    Léo

  • Renata disse:

    Aguardo a segunda parte. Eu poderia me perder por horas e horas lendo as palavras do Lama Padma Samten, seja nesse tema (que me perturba bastante), seja dos outros.

  • Roberta disse:

    Sonho com o dia em que os profissionais da área da saúde mental vejam os seres humanos como esses olhos.

  • A Doença Mental na Perspectiva Budista | Parte 2 | Bodisatva: um olhar budista disse:

    […] Leia a primeira parte da palestra. […]

  • Luis disse:

    Por favor, poderiam nos indicar os links para os textos de Rinpoche sugeridos pelo Lama?(Transcending Madness e Além do Materialismo Espiritual).Gratidão.

  • Jorge Cezar disse:

    E pensamos que são coisas comuns quero aprender mais grato!

  • isabel verardi disse:

    Maravilha!
    É preciso enterder e viver isso tudo.
    É possível indicar os links p/ os textos sugeridos?
    Longa vida Lama Samten! Obrigada. BEL

  • Luiza Berredo disse:

    O entendimento desse texto é entender o que significa a Roda da Vida em nossa vida. EStudo longo mas belo. Obrigada pelo texto. Vou ler a segunda parte agora… :-)

  • A Doença Mental na Perspectiva Budista | Parte 3 | Bodisatva: um olhar budista disse:

    […] da transcrição da palestra do Lama Padma Samten sobre as doenças mentais na perspectiva budista. Leia a primeira parte. Leia a segunda […]

  • Samyra disse:

    Texto interessantíssimo.
    Continuem com o trabalho extremamente esclarecedor e alternativos às vias normais de abordagem ao tema.

  • Leia disse:

    A transcrição desta palestra, seguramente, beneficia vários seres, inclusive a mim. Obga pela paciencia e amor por todos os seres ao fazer este trabalho maravilhoso para nós. Parabéns. Vou ler a segunda parte agora.

    Léia

  • Claudia disse:

    A gente se livra fácil fácil de todos os psiquiatras e afins quando entendemos que não precisamos deles para nada, só para obter remédios. Se assumirmos a responsabilidade de nossos atos, decisões e comportamentos e não aceitando conselhos de ninguém, já estamos quase curados. A cura existe quando nós aceitamos os resultados de nossas decisões porque foram nossas e isto nos orgulha. Não precisamos culpar ninguém. Estamos provando nossos frutos sejam amargos ou não. Não é esta a razão, o âmago da vida e do que Deus quer para gente?

  • karina disse:

    Olá! Onde eu posso encontrar esta palestra do Lama em áudio ou vídeo?
    Obrigada!

  • Lama Padma Samten – Educação, Saúde e nosso Mundo Interno (1) | Bodisatva: um olhar budista disse:

    […] Leia os ensinamentos do Lama Padma Samten sobre “As Doenças Mentais na Perspectiva Budista“. […]

  • Elza disse:

    Gratidão.

  • Nathália disse:

    Para mim, o melhor texto do Lama. Tocou-me profundamente!
    Agradeço a todos os seres que permitiram de alguma forma a exposição desse ensinamento! Graças!

  • Felipe disse:

    Texto precioso!

    Vi alguém aqui citando remédios e tal. Isso suscitou vários pensamentos em mim, um deles, sobre se a simples tomada de rédeas da nossa vida e de nossas decisões é um remédio possível.

    Em algumas condições a pessoa está tão debilitada psicologicamente, emocionalmente, que não consegue tomar essa postura. Nesse sentido é que os remédios ajudam. Uma pessoa com uma depressão maior, muito debilitante, pode se beneficiar dos remédios para que suas emoções sejam um pouco acalmadas e a pessoa aí sim possa tentar ter uma tomada de decisão mais própria, menos guiada pelos impulsos emocionais.

  • Webston Moura disse:

    Ontem, li esse texto do início ao fim. Li e reli. Adorei! Ótimo! Indiquei a amigos para que fizessem uma apreciação. Parabéns ao blog por esta maravilha, como todas as outras. Abraços!

  • Roseli disse:

    Ola!

    E quando um dos sintomas é escutar vozes falando o tempo todo?
    o que seria isso?

  • alano alexandre disse:

    Penso que o transtorno mental tem várias interconexões, emocional, afetiva e de ações e reações do meio que afetam a mente fragilizada, espero que o Budismo possa colaborar para aquietar a mente e claro viver em equilíbrio.

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